Quentin à sombra dos filmes em flor

Quentin à sombra dos filmes em flor

Rodrigo Fonseca

15 de agosto de 2019 | 20h11

Rodrigo Fonseca
Exibido numa dobradinha com “Dália Negra”, de Brian De Palma, na abertura do Festival do Rio 2006, o curta-metragem “Tarantino’s Mind”, do coletivo 300 ML, com Seu Jorge e Selton Mello, aposta numa tese, mais do que bem-vinda, neste dia de estreia de “Era uma vez… em Hollywood” no Brasil, segundo a qual: “a obra do ex-funcionário de locadora, transformado em diretor, é, na prática, um filme só, fatiado em várias partes”. No papo borracho da dupla, no magistral filme-pílula dos 300ML, o americano nascido há 56 anos em Knoxville, Tennessee, não faz meros longas-metragens, e sim, um universo fílmico, uma epopeia cinéfila. Essa foi a impressão que seu deslumbrante novo trabalho causou na Suíça, no último sábado, onde se tornou a febre do Festival de Locarno, que termina neste sábado. Diante de toda a importância de Locarno no cenário internacional das mostras cinematográficas, compondo o G7 dos festivais (ao lado de Cannes, Veneza, Toronto, Berlim, Roterdã e San Sebastián), a exibição do longa por lá foi estratégica para a afirmação de sua carreira na Europa e para a trajetória da produção de US$ 90 milhões na cola do Oscar. Dizem que Brad Pitt leva o prêmio de ator coadjuvante por sua magnética participação. No filme, ele vive o melhor amigo e parceiro de trabalho de um astro de TV em decadência, encarnado por

Pitt é um dublê com um passado trágico, o viajandão Cliff Booth. DiCaprio é o ator Rick Dalton, um astro de séries de faroeste que está vivendo uma fase de ocaso e que busca a volta por cima. Booth o substitui em cenas perigosas e é seu motorista, com direito a uma hilária luta imaginária com Bruce Lee. Booth é ainda testemunha de um amor que se instaura na casa vizinha ao lar de seu amigo e chefe: a casa dos Polanskis, onde Roman (o diretor) vive com a atriz Sharon Tate. Saudado como obra-prima por alguns e como um equívoco para outros, em sua passagem por Cannes, esta viagem à História americana, como foco na indústria do audiovisual (a TV e o cinema), estrutura-se a partir de uma visita de Tarantino ao ano de 1969.

Foi nessa data que a modelo e atriz em ascensão Sharon Tate, então grávida do cineasta franco-polonês Roman Polanski (famoso por “O bebê de Rosemary”), foi morta pela seita do maníaco Charles Manson. Quem encarna Sharon é a australiana Margot Robbie, que viveu a mulher de DiCaprio em “O Lobo de Wall Street” e que, segundo línguas ferinas da Croisette, esteve na cidade aos flertes com Pitt. O desempenho dela é um chamariz para prêmios: Margot, a Arlequina de “Esquadrão Suicida” (2016), quase não usa palavras para encarnar Sharon, interpretando-a como se ela fosse uma entidade, um espectro de um tempo perdido.

Não houve nada no brilhante cardápio de Locarno deste ano (com direito a um Pedro Costa zero km: “Vitalina Varela”) tão apetitoso quanto o filmaço de Tarantino. Divididos entre a competição pelo Leopardo de Ouro e dez mostras paralelas, os 250 filmes da 72ª edição do Festival de Locarno tiveram como carro chefe, em termos de popularidade, a viagem de Quentin Jerome Tarantino ao ano de 1969 e às agonias da contracultura de um ano que não acabou, exibidas no evento suíço debaixo de litros de chuva. Quente como um forno, Locarno banhou-se com o suor frio do Céu na sessão de “Era uma vez em Hollywood”, vista por uma multidão ensopada que não arredava o pé e o bumbum das cadeiras de plástico da Piazza Grande, apaixonadas por aquele movimento proustiano de decantação do tempo perdido do Cinemão. Um exibidor latino-americano, conhecido aqui da “Metrópolis”, com os lábios sorridentes de encanto pelo gingado de Margot Robbie, olhava aquele espetáculo e dizia com convicção: “Vai ser um fenômeno, pra jogar a grife Tarantino para a raia dos milhões”. O lápis confirma a tese do hermano: somando-se os oito e ½ filmes rodados e lançados por QT de 1992 até hoje (o mezzo se refere aos dois volumes de “Kill Bill”), temos uma arrecadação que beira US$ 1,5 bilhão e um balde Oscars. E, de 26 de julho pra cá, “Once upon a time… in Hollywood” já papou US$ 113 milhões, comprovando-se um ímã de espectadores.  

Falar em Tarantino é falar em receitas astronômicas, mas também é falar em reinvenções do código histórico, numa lógica de metanarrativa: em seus filmes o Passado, aquele com “P”, não se faz da História, aquela com H, e sim com o próprio Cinema… com a história que os filmes fabricaram. Daí o juízo final de Hitler em “Bastardos Inglórios” (2009). Formado (e cultuado) como realizador a partir de uma trilogia sobre malandragem, reunindo “Cães de aluguel” (1992), “Pulp fiction” (1994) e “Jackie Brown” (1997), Tarantino dedicou a porção inicial de sua obra como cineasta a experimentar um novo modelo de estrutura dramatúrgica, calcado em inversões da ordem narrativa e no diálogo coloquial.  Dali, assinou a carta de alforria para que o pop saísse da senzala da cultura e virasse matéria de reflexão, ao retratar criminosos discutindo “Like a virgin”. O pop, com ele, ganha status filosófico. Não por acaso, a saga da Noiva (Uma Thurman) tem como epígrafe um ditado Klingon, pinçado de “Star Trek”: “A vingança é um prato que se come frio”. Não por acaso, os olhares de QR se concentram agora sobre a Enterprise do Capitão James Tiberius Kirk.

Faz tempo que a produtividade do diretor viceja. Mas ele já viveu dias de página em branco. Após um hiato de cinco anos sem dirigir, entre os anos 1990 e 2000, ele retornou abrindo uma segunda trilogia, quase barroca em seus excessos e antíteses morais, mais preocupada com a potência da imagem do que com a força da palavra. Ela encontra em “Django livre” seu ápice formal.  Para além das referências que fazem o deleite dos cinéfilos, a começar pela citação à canção-tema de “Django” (1966), na voz de Rocky Roberts, o faroeste rodado em locações no Wyoming, na Califórnia e na Louisiana, por US$ 100 milhões, demarca o ápice do refinamento plástico buscado pelo cineasta a partir dos volumes 1 e 2 de “Kill Bill” (2003, 2004).

Com o já citado périplo revanchista da Noiva Thurman, Tarantino passou a fazer da vingança uma fagulha para incendiar o tema que virou seu norte : o resgate de honras maculadas por agentes de um poder não institucionalizado.  Em “Kill Bill” era o gangsterismo, encarnado no chefão vivido por David Carradine. Em “Bastardos Inglórios” (2009), vinha o intervencionismo nazista. Já “Django livre” põe em foco os escravocratas do Sul dos EUA, potencializados numa atuação de brutalidade ascendente por Leonardo DiCaprio (um ator na flor da maturidade). E todos os três filmes são construídos tendo como espelho o cinema de Sergio Leone (1929-1989), e não apenas na semelhança dos planos gerais e closes. Essa relação especular vem sobretudo em sua poética arqueológica (quase proustiana) de historicizar a formação de uma nação para entender suas cicatrizes políticas contemporâneas. Cicatrizes que encontraram na Hollywood dos deuses supremos de Tarantino – Howard Hawks, Sam Peckinpah e John Carpenter – a educação pela pedra do humanismo. Uma pedra afiada, que, hoje, atinge a carne mole do politicamente correto e do moralismo em cheio, deixando nela hematomas que ardem e queimam na fogueira das vaidades da lacração. Mas QT, dono da obra cinematográfica mais influente dos últimos 25 anos, é maior do que a procrastinação dos descontentes. Seu cinema é uma Excalibur que muita gente tenta erguer. Mas ser rei, na dramaturgia, é para eleitos. E Tarantino foi eleito por um povo fiel, que renasce a cada filme bom que ele faz, como “Era uma vez…”.

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