‘Quem Vai Ficar Com Mário?’: a chanchada do Hsu

‘Quem Vai Ficar Com Mário?’: a chanchada do Hsu

Rodrigo Fonseca

09 de junho de 2021 | 22h31

Letícia Lima embatuca o coração de Daniel Rocha – e se firma como uma das atrizes mais inteligentes de sua geração, na composição de tipos questionadores – em cena de “Quem Vai Ficar Com Mário?”

RODRIGO FONSECA
Célebre entre os cinéfilos do Rio de Janeiro por seu modo “viva a vida!” de ser, por seu apetite voraz por rabada e por ver de cinco a seis longas-metragens por dia, mesmo quando filma, dá aula e faz análise de roteiros, o chinês nascido em Taiwan e radicado no Catete Hsu Chien Hsin se gaba de ter visto de tudo, menos “Rambo”. Nem o II, “A Missão”, cujo roteiro foi escrito por James Cameron, e passou no “Cinema Especial” da Globo, em 1988, dublado por André Filho, ele viu. Porém, tem algo de Rambo na divertidíssima – e plasticamente requintada – comédia “Quem Vai Ficar Com Mário?”, o segundo longa que Hsu dirige após uma longeva e disputada carreira como assistente de direção. Em sua essência, o veterano do Vietnã vivido por Stallone guarda “coisas escondidas em seu porão”, numa referência ao instinto afirmativo de sobrevivência que ele adormeceu em si, mas que, vez por outra, acorda, partindo pra briga. É a mesma situação que se passa com Mário Brüderlich, dramaturgo e escritor encarnado por Daniel Rocha (o Popó da belíssima série de TV a cabo “Irmãos Freitas”) com uma maturidade surpreendente. Egresso de um clã embebido no chimarrão do sexismo, em um canteiro do Rio Grande do Sul ainda atado a tradições machistas, Mário é homossexual, gravita pelo trópico da felicidade em seu namoro com o diretor teatral Fernando (Felipe Abib, preciso como relógio suíço), mas não é capaz de assumir para a família que é gay. O que ele retém num porão tão mofado de moralismo como o de Rambo é a instintiva coragem de reagir ao conservadorismo ao seu redor. Numa viagem para matar as saudades do berço, ele decide sair do armário. Mas, lá, tropeça num obstáculo que se mostra um quebra-molas em sua estrada de realização afetiva: seu irmão, Vicente (Rômulo Arantes Neto), assume-se antes dele, surpreendendo a todos. Esse plot pode soar familiar pois já foi contado na dramédia italiana “O Primeiro que Disse” (“Mine vaganti”, 2010), levada pelo cineasta Ferzan Ozpetek à mostra Panorama da Berlinale. Mas uma negociação de direitos deu à produtora Virginia Limberger (e ao saudoso Pedro Rovai) o direito de transpor essa trama pra cá, com brasilidade aos litros. A marca primeira desse DNA verde e amarelo vem de um tom de chanchada que a narrativa adquire, numa parentela com “Augusto Aníbal Quer Casar” (1923), do pioneiro de nossa gargalhada audiovisual, Lulu de Barros (1893–1982). Lá, como aqui, o riso é uma arma para debelar a homofobia e celebrar formas de amar livres, que se manifestam quando Mário, obrigado a se manter na jaula do silêncio, é atropelado pela figura de Ana, papel dado à mais talentosa atriz de sua geração hoje no cinema: Letícia Lima.

Ana é que dá tônus de combate, e também de conciliação, a uma narrativa sobre escolhas, que se impõe como um espetáculo visual à força do dionisíaco uso de cores da fotógrafa Kika Cunha. No roteiro, assinado por Stella Miranda, Luis Salém e Rafael Campos Rocha (sendo que o IMDB inclui Laura Malin), Ana vem oxigenar a cervejaria dos Brüderlich no momento em que Mário se vê forçado a chefiar os negócios de seu papai, papel dado ao ator Zé Victor Castiel (o Totò do cinema gaúcho). Ela fla a língua do marketing e conhece na pele o açoite do desrespeito, ao qual reage já em sua cena de apresentação, quando rabisca um cartaz onde se lê “Lugar de mulher é na cozinha”. Seu grafite é “Lugar de mulher é onde ela quiser”. Mal sabe ela que esse lugar, no filme, será, também, o coração de Mário, que fica em dúvida sobre seu querer, numa apimentada reflexão sobre bissexualidade, sobre modos de desarmar bombas de hormônios e armar situações de puro prazer. As sazonais tiradas do cunhado vivido por Marco Breda; o olhar de aconchego da (brilhante) atriz Elisa Pinheiro (diva das recentes crônicas afetivas de nosso cinema, como se viu em “Tudo Bem No Natal Que Vem”); e a direção de arte de Valéria Costa dão a esse “Pato com Laranja” de Hsu uma potência estética de inquietude. É um trabalho de evolução perto de seu longa anterior, “Ninguém Entra, Ninguém Sai” (2017), também sobre uma penca de gente engastalhada num mesmo ambiente de repressão, também com Letícia. São coisas de autor.

O vulcão Nany People

Essa sua autoralidade encontra na sobriedade dela um aríete para seus debates acerca das nossas mesquinharias emotivas cotidianas. Ana e seu modo plácido de amar e de aceitar diferenças faz do longa uma pedida belíssima para este Dia dos Namorados, sobretudo por salpicar romantismo entre o personagem de Castiel e a exuberante figura de Lana, performer trans vivida por Nany People com plumas, paetês, purpurina e dignidade. É um filme com uma doçura e uma beleza singulares, que atestam o quanto Letícia é gigante; o quanto Rômulo Arantes Neto pode nos avassalar com opções profissionais (e composições dramáticas) ousadas; e o quanto a cinefilia do Hsu pode render boas histórias.

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