Que a Força esteja no Telecine… com ‘Rogue One’

Que a Força esteja no Telecine… com ‘Rogue One’

Rodrigo Fonseca

25 de novembro de 2017 | 10h45

Felicity Jones é a furtiva Jyn Erso, cuja missão é debelar os planos da construção da Estrela da Morte neste derivado da franquia Star Wars

Rodrigo Fonseca
Frente ao esgotamento da chama épica inerente às narrativas bélicas, prenunciado pelo excesso quantitativo de longas-metragens sobre fronts perfumados a pólvora, Hollywood e o cinema inglês (este sobretudo) inventaram um caminho para renovar o filão de filmes de guerra: deixar o preciosismo histórico de lado e investir na aventura, usando combates reais apenas como cenário. É o caso de produções memoráveis como Os Canhões de Navarone (1961), de Lee J. Thompson; A Águia Pousou (1976), de John Sturges; e o tarantinesco Bastardos Inglórios (2009). Convulsivo do começo ao fim, Rogue One: Uma História Star Wars, que terá sessão às 22h deste sábado na Rede Telecine, alinha-se com este grupo histórico de filmes, levando a estética deles ao espaço, numa narrativa tensa, balizada pela supervisão de montagem do Midas da edição Stuart Baird, de A Profecia (1976) e Máquina Mortífera (1987). Sua bilheteria mundial arranhou a casa do US$ 1 bilhão. Pra ser exato, rendeu um bilhão, cinquenta e seis milhões e cinquenta e sete mil dólares. E ele ainda concorreu ao Oscar de efeitos especiais e de mixagem de som, sob a direção firme de Gareth James Edwards, da versão hollywoodiana 2014 de Godzilla.

O Lado Negro do lorde Sith

Dona do maior vilão de toda a cultura pop – no caso, Lorde Darth Vader -, a franquia Star Wars se supera – e nos surpreende – uma vez no aparentemente despretensioso Rogue One ao presentear o público com uma nova e sedutora encarnação da Maldade, apta a injetar frescor na representação da perversidade nas telas. Trata-se do Dr. Orson Krennic, vivido por um dos mais instigantes atores hoje a serviço da indústria: o australiano Ben Mendelsohn. Ele é uma das múltiplas virtudes desta produção de US$ 200 milhões, rascunhada para ser um spin-off da segunda trilogia da série, ambientada antes do longa-metragem de 1977. A maior de suas qualidades está no apuro da fotografia, a mais elegante e bem lapidada de toda grife fundada no fim da década de 1970, com enquadramentos que valorizam – nos closes – as inquietações existenciais dos personagens, todos sempre em dúvida, menos Darth Vader. Sim, o ferrabrás maior do audiovisual aparece – não se deve dizer onde – põe o filme no bolso e nos dá uma das sequências de ação mais arrebatadoras da década. Digna de aplausos. A presença dele é outro achado, que cria uma espécie de reflexo ao avesso da figura de Krennic.

Krennic, o vilão: Sergio Rufino dubla o personagem na versão brasileira

Com sua capa branca, o oficial incumbido de cumprir os desígnios de Vader é um poço de humanidade na gincana de caçadas, perseguições, fugas e lutas dirigido por Gareth Edwards. No circuito de desafios construído pelo cineasta há uma mulher que deve alimentar os sonhos de esperança dos Rebeldes.

Muito tem se falado sobre ela, a heroína, Jyn, encarnada protocolarmente (nada mais) por Felicity Jones, como um exemplo do chamado “empoderamento feminino”, que nos deu a Imperatriz Furiosa de Mad Max: Estrada da Fúria ou a Rey de O Despertar da Força. Mas é um exagero posicioná-la ao lado dessas outras duas, pois a ladina que deve surrupiar os planos da Estrela da Morte (espécie de encouraçado indestrutível idealizado para esmagar a Aliança Rebelde) não tem o tônus trágico das personagens vividas por Charlize Theron e Daisy Miller, tampouco enverga o mesmo simbolismo político nelas imbuído. Jyn é a sombra de um homem, seu pai, Galen Erso (o sempre inquietante Mads Mikkelson). Foi ele quem idealizou a tal Estrela e fugiu do Lado Negro da Força, para se isolar com a mulher com Jyn onde não pudesse ter suas ideias encontradas pelos acólitos do Imperador. Mas, por mais que tivesse tentado salvar o lado republicano do universo do Mal, ele tomba nas mãos de Krennic, sendo preso por anos a fio, concebendo o armamento definitivo (ou quase) de Vader. Tudo o que Jyn fará no filme inteiro é mediado pela ausência ou pela presença de Galen, como se ele fosse sua bússola, seu norte, seu modelo. E na jornada para seguir os passos dele, ela alcança um devir heróico, mas não algo que fale apenas por si.

O mesmo não pode se dizer de Krennic, que uma espécie de encarnação do fracasso, mesmo ostentando uma pecha de assustador. Capturar o pai de Jyn foi seu único acerto. Como oficial, ele é um vexame, sendo objeto de escárnio nas mãos de seus superiores e na telepatia de Vader. Tudo o que faz dá errado, mas seus deslizes não atenuam sua retidão, sua busca de tentar cumprir uma missão: impedir que a planta da Estrela da Morte seja roubada. Contradição viva, Krennic é um prato cheio para Ben Mendelsohn consolidar (e manter de pé) um Frankenstein simbólico, um amarrado de sentimentos maus num corpo fraco. É uma atuação soberba para um filme que inicia sua narrativa prometendo ser uma aventura Star Wars padrão e vira um Platoon, com tomadas de batalha que só se encontra nos clássicos dos filmes de guerra ou em seus derivativos mais saborosos – e de maior gosto de pipoca – as já citadas aventuras de guerra.

Chirrut (abaixado) é o samurai cego que combate o Império: Donnie Yen em ação

Nesta aventura belicista, mais um personagem se impõe: o guerreiro oriental Chirrut, delineado a partir de todo o carisma de Donnie Yen. Trata-se de um samurai cego, fiel fervoroso da Força, que usa um bastão de arma. Com ele, vivemos os momentos de maior adrenalina do longa, que merece inspirar outros derivados da mesma altura, dado o esperado Han Solo: Uma História Star Wars, prometido para maio de 2018, sob a direção de Ron Howard e com Alden Ehrenreich no papel central.
p.s.: Na versão brasileira de Rogue One, o dublador Sergio Rufino faz a voz de Krennic. E Clarice Espíndola dubla Jyn com elegância rara.

 

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