Quatro filmes brasileiros concorrem em Biarritz

Quatro filmes brasileiros concorrem em Biarritz

Rodrigo Fonseca

12 de setembro de 2021 | 07h11

Mariana Ximenes e Vladimir Brichta proseiam com Machado de Assis em “Capitu e o Capítulo”

Rodrigo Fonseca
Criado em 1991 para servir como vitrine para a América Latina no Velho Mundo, presidido por Serge Fohn, com Antoine Sebire no posto de delegado geral, o Festival de Biarritz, na França, localizado a uma hora do norte da Espanha, vai fazer uma lírica imersão na realidade brasileira por múltiplas vias, em sua 30ª edição. Há quatro filmes nacionais em competição, em seções distintas, no evento, que serve como vitrine estética para a Pangeia de idiomas indígenas, hispânicos e portugueses ao alcance do olhar dos franceses. Sua programação vai de 27 de setembro a 3 de outubro. Nos curtas, entramos em campo com “Igual / Diferente / Ambas / Nenhuma”, de Fernanda Pessoa e Adriana Barbosa. Fernanda vive em São Paulo e Adriana, em Los Angeles. Ambas trocam cartas em vídeo durante o mês de maio e abril de 2020, numa relação epistolar que faz um balanço da situação social e política no Brasil e nos Estados Unidos. Os papos entre as duas flagram a contaminação do global pelo local, do privado pelo público. No rastro delas estão dois concorrentes de peso: o argentino “El Oso antártico” e o colombiano “Son of Sodom”. Já na seara dos longas, haverá brasilidade na seara da ficção – com “Capitu e o Capítulo”, novo trabalho de uma lenda autoral chamada Júlio Bressane, e “Madalena”, de Madiano Marcheti, ambos egressos de Roterdã – e no empório documental – com “Edna”, de Eryk Rocha, um dos destaques do É Tudo Verdade 2021 e do Festival de Telluride, nos EUA.

Editado por Rodrigo Lima e vitaminado por um elenco de peso (Mariana Ximenes, Enrique Diaz, Djin Sganzerla, Vladimir Brichta e Saulo Rodrigues), “Capitu e o Capítulo” é a imersão de Bressane no universo em prosa de Machado de Assis, a partir de “Dom Casmurro”. Mas o diretor de “Filme de Amor” (2003) não adapta o romance (sobre um advogado ciumento em suspeita de que sua esposa, Capitu, o traiu com seu melhor amigo) em si. Ele se propõe mais (e melhor) a adaptar a escrita machadiana em seu ritmo, sua respiração doentia.

“Madalena”, de Madiano Marcheti: transfobia em foco

Erigida a partir de uma delicadíssima montagem, “Madalena” é um produção do Centro-Oeste, rodada em Dourados, incorpora o esplendor natural de sua “arena” dramatúrgica desde a primeira sequência, onde a beleza contrasta com a violência: o corpo de uma mulher trans foi encontrado em campos de soja. Mais adiante, o espírito dela parece flanar por aquela geografia verde, numa representação metafísica do horror diante da transfobia. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a narrativa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

Lançado mundialmente no Visions du Réel Film Festival, na Suíça, “Edna” tem levado Eryk Rocha a alguns dos principais eventos documentais do planisfério cinéfilo. Nele, o realizador de “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016) arranha as franjas do lirismo, apoiado numa estonteante fotografia em P&B, embalado em uma canção de Paulo Sérgio (“Máquinas Humanas”). Apoiado numa narrativa híbrida, nas raias da rodovia Transbrasliana, o cineasta transita entre o real e o imaginário, por guerrilhas, desaparecimentos e desmatamentos, com foco no diário de uma mulher assolada por palavras e recordações regadas a sangue, algumas delas ligadas à Guerrilha do Araguaya.

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