Pulitzer da saudade para… Tim Lopes

Pulitzer da saudade para… Tim Lopes

Rodrigo Fonseca

24 de abril de 2020 | 15h34

Hoje envolvido num projeto sobre o sambista Roberto Ribeiro, o roteirista Bruno Quintella assina o roteiro do .doc sobre seu pai, Tim Lopes, mito do jornalismo investigativo

Rodrigo Fonseca
Nas asas do “Corujão” desta madrugada, chega uma saga de investigação, luta contra injustiças sociais e, sobretudo, saudade que traduz a natureza romântica (e ética) do jornalismo brasileiro: às 3h, na Globo, rola “Tim Lopes – Histórias de Arcanjo”, troféu Redentor de melhor documentário de 2013. Dirigida por Guilherme Azevedo, a produção revê (e revive) as divertidas e tocantes estratégias tramadas pelo jornalista Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento (1950 – 2002), conhecido (e respeitado) como Tim Lopes, para chegar à notícia, convertendo indícios em reportagens marcantes. Gaúcho de berço, ele começou a trabalhar na Globo como produtor de reportagens do “Fantástico”, em 1996, e venceu o Prêmio Esso de Telejornalismo de 2001 pela série Feira das Drogas, exibida no “Jornal Nacional”. A morte do jornalista abalou o país há 18 anos. Tim foi morto durante a apuração de uma denúncia de consumo de drogas e exploração de menores em balies funk na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro. É seu filho, o roteirista Bruno Quintella, dono de uma escrita fina e suave na percepção de conflitos do cotidiano, quem escreveu o longa, perfumando sua narrativa de afeto, sem dirimir a fragrância de indignação.
“Para gente, é sempre motivo de orgulho exibir um documentário sobre um jornalista na TV aberta. Por mais que seja na madrugada, são milhões de espectadores que, nem nos nossos sonhos, a gente conseguiria alcançar no cinema, em especial por se tratar de um documentário”, diz Quintella, lembrando que o processo de construção do filme, produzido pelo bamba Emílio Gallo (de “Esse Homem Vai Morrer”), foi doloroso. “Além de remexer nas feridas internas, na saudade e nas lembranças íntimas, havia a pergunta mais racional que era como seria a linha do argumento. Existem certas coisas que talvez fossem só interesse meu e não do público. Como seria transformar o Tim Lopes no arcanjo Antonino? O projeto partiu do diretor, o Guilherme Azevedo. A gente conversou muito com a montadora do filme (Joana Collier) pra isso. Eu fui roteirista, fiz o argumento e a linha de campo das entrevistas. No início das entrevistas eu estava me comportando mais como jornalista do que como filho. Depois decidimos inverter. Eu decidi ser mais filho e menos jornalista. Queria alcançar a grandeza do meu pai independentemente da minha profissão. A gente decidiu ir primeiro no lugar em que ele morreu. Ele foi capturado na Vila Cruzeiro e morto na Grota. Depois decidimos ir aonde ele nasceu, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. O processo de criação foi uma aproximação do meu pai e um afastamento do ídolo”.

Como marco zero, “Tim Lopes – Histórias de Arcanjo” nasceu na França: a primeira exibição dele foi em abril de 2013, no Festival de Cinema Brasileiro de Paris. “Em 2014, teve o Festival de Nova York e o San Diego Black Thing Festival. O último evento foi em Lisboa. Foram dois anos que ele teve de vida em festivais. O lançamento comercial foi em junho de 2014 e, no ano seguinte, ele estreou na TV, justamente no ‘Corujão’, pra onde volta hoje”, conta Quintella.
Seu foco agora se volta para um outro .doc em parceria com Gallo, centrado na voz singular do sambista Roberto Ribeiro (1940-1996), que cantava pérolas como “Esta vida é um jogo/ E cada um joga o que tem/ Quem é que não gosta de carinho/ Quem que é que não gosta de ninguém”. De sua boca, saía lirismos oportunos para saltitar a vida, como: “Quero embriagar-me com teus beijos/ Estravazar os meus desejos/ Sentir em mim o teu amor/ Quero ser toda paz que acalma/ Ser toda luz de tua alma/ Ser todo teu calor”.
“O .doc do Roberto Ribeiro é um trabalho que estou muito feliz de estar fazendo. Em relação ao filme do meu pai, era um sonho e um desafio que eu tinha. Não é uma ideia minha, mas o Guilherme Azevedo me chamou para concebermos juntos. O do Roberto é um projeto que eu idealizei, chamei o Emílio Gallo, que é um cara com que eu conto muito nesse sentido de poder fazer a minha história na direção”, explica Quintella. “O Roberto Ribeiro tem uma história trágica e injusta, ele morreu em 1996 atropelado e já estava esquecido pelo público. As pessoas acham que os sambistas que saíram do olhar do mainstream caíram no ostracismo por causa de bebida, depressão ou porque não tinham talento. Esse não era o caso dele. Algumas músicas dele bateram o Roberto Carlos na década de 1970. Ele foi descoberto pela Elza Soares, foi capa de várias revistas, teve disco de ouro e platina, cantou com Chico Buarque, Gonzaguinha, Ivan Lins. Toda vez que toca a música dele, nos subúrbios do Rio, alguém se emociona. O filho dele, Alex, é um dos responsáveis por manter a memória do pai vivo. Talvez tenha sido com isso que eu tenha me identificado: o fato de o Alex tentar mostrar e provar que o seu pai iria muito mais além do que delimitaram para ele. Acho que o bacana de contar a história do Roberto é reviver toda a história africana e negra que existe por trás de uma carreira. Ele é um cara originário do bairro Canavial, de Campos dos Goytacazes, uma cidade conhecida por receber escravos. O nome dele não era Roberto, era Dermeval de Sousa Maciel. Veio para o Rio e conheceu a mulher dele, que levou ele para o Império Serrano, lugar conhecido por toda uma ligação com a África. A gente quer contar um pouco dessa história de um artista negro pela cidade do Rio e sair um pouco do samba da Zona Sul”.
Dá pra conferir “Tim Lopes – Histórias de Arcanjo” pela Globoplay também.

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