‘Promises’ de filmaço com Isabelle Huppert

‘Promises’ de filmaço com Isabelle Huppert

Rodrigo Fonseca

30 de novembro de 2021 | 23h25

A prefeita Clémence (Isabelle Huppert) e seu assessor (Reda Kateb) em cena de
“Les Promesses”, um dos destaques do 43º Festival do Cairo

RODRIGO FONSECA
Em tempos de Varilux, quando o Brasil não tira os olhos da seleção francesa montada pepal dupla Emmanuelle e Christian Boudier, com joias como “Ilusões Perdidas”, a terra de Truffaut vem emplacando sucessos e conquistando prêmios – entre eles a Palma de Ouro, dada a “Titane”, e o Leão de Ouro, concedido a “L’Evénement” – nos maiores festivais do mundo, incluindo o do Cairo, que conferiu hoje mais um show de atuação de Isabelle Huppert. “Les Promesses”, que vem rodando o mundo desde Veneza, em setembro, com o título “Promises”, foi construído por Thomas Kruithof (diretor de “Mecânica das Sombras”) como se fosse um filme americano dos anos 1970, à moda Alan J. Pakula (“Todos os Homens do Presidente”), adotando um Reda Kateb luminoso como seu Dustin Hoffman. Avessa ao uso contínuo de música, capaz de usar o silêncio como um diapasão da angústia, a montagem de Jean-Baptiste Beaudoin evoca o modo de filmar da Nova Hollywood (1967-1981), em thrillers políticos sobre as institucionalizações da corrupção na Europa de hoje.
Com uma frieza de calota polar, Isabelle vive Clémence, prefeita de uma cidadezinha onde um conjunto habitacional assolado por goteiras é explorado por agiotas. Depois de ano devotada a melhorar aquele local e garantir uma vida melhor para seus eleitores, ela tem uma chance de tentar uma carreira como ministra, o que representaria deixar votantes fiéis à míngua. Existe uma ambição nela que gera miopia. Mas seu fiel assessor, Yazid (Kateb), vai cuidar para que a alcaide não sucumba à vaidade, traindo seus ideais. Para isso, Yazid vai descer aos infernos da politicagem, negociando comas almas mais sebosas da França, num roteiro que é uma aula de sociologia e de maquiavelismo. E Isabelle está impecável.

Às vésperas de seu encerramento, o Festival do Cairo vai exibir “C’Mon, C’Mon”, de Mike Mills. Dois anos depois da consagração de “Coringa” (Leão de Ouro de 2019), Joaquin Phoenix pode conquistar um novo Oscar no papel de um radialista que viaja ao lado do sobrinho recolhendo depoimentos de crianças sobre as rotinas do dia a dia da vida. A fotografia em P&B de Robbie Ryan vem sendo um ímã de elogios.
Na competição oficial, que conhecerá seus vencedores neste domingo, quando o júri presidido pelo diretor sérvio Emir Kusturica divulgar seus resultados, há uma torcida organizada em torno do mimoso filme “Piccolo Corpo”, de Laura Samani, de Itália. É difícil não pensar em Roberto Rossellini… e, sobretudo, no Ermanno Olmi de “A Árvore dos Tamancos” (Palma de Ouro de 1978) diante dos planos idealizados por este achado da Semana da Crítica de Cannes, que investe pesadamente no realismo para (de modo paradoxal) dar sustância a uma fábula. Seu filme viaja no Tempo, até a Itália de 1900. Lá, o bebê da jovem Agata é nascido morto e condenado ao Limbo, sem receber as unções cristãs. Agata ouve falar de um lugar nas montanhas onde crianças natimortas podem ser trazidas de volta à vida com apenas um sopro, para batizá-los e salvar sua alma. Ela empreende uma viagem com o pequeno corpo de sua filha escondido em uma caixa e encontra Linx, um menino solitário que se oferece para ajudá-la. Eles partem para uma aventura que permitirá a ambos se aproximarem de um milagre.

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