Cinema egípcio ferve ao produzir 30 filmes/ano

Cinema egípcio ferve ao produzir 30 filmes/ano

Rodrigo Fonseca

28 de novembro de 2021 | 10h14

Andrew Mohsen assina a direção artística do Festival do Cairo, uma vitrine para a produção do Egito

RODRIGO FONSECA
Um papo sobre “Lavoura Arcaica” (2001), a imersão de Luiz Fernando Carvalho dos resquícios da cultura libanesa na prosa de Raduan Nassar, importou brasilidade para a conversa do P de Pop do Estadão com o diretor artístico do Festival do Cairo, o crítico egípcio Andrew Mohsen, que desde sexta-feira, com a abertura da 43ª edição do evento norte-africano, anda atulhado em reflexões sobre os rumos do cinema de seu país. Muitas inquietações do time de curadores do qual faz parte – presidido pelo roteirista e produtor Mohamed Hefzy – toma forma graças à presença do Egito na competição internacional de longas-metragens, representado por “Abu Saddam”, de Nadine Khan. Ela concorre à Pirâmide de Ouro com títulos de peso como o thriller italiano “A Chiara”, de Jonas Carpignano; a comédia alemã “Daughters”, de Nana Neul; e o drama social mexicano “Reze pelas Mulheres Roubadas” (“Noche de Fuego”), de Tatiana Huezo. Mohsen abriu as salas de seu festival (que termina no próximo domingo, dia 5) para a prata documental da casa, ao programar “From Cairo”, dirigido pela cineasta Hala Galal. O retrato que ela faz sobre o sexismo de sua pátria tornou seu novo filme um dos títulos mais disputados da mostra competitiva Horizontes do Cinema Árabe, uma das seções do evento.
Na entrevista a seguir, Mohsen comenta o que busca compartilhar com os críticos que chamou para acompanhar 110 produções egressas de diferentes cantos do planeta, entre os quais o Brasil, representado por “Marinheiro das Montanhas”, de Karim Aïnouz.

Cena de “Abu Saddam”, um dos 14 candidatos à Pirâmide de Ouro de 2021

Há muito respeito entre os cinéfilos brasileiro por Youssef Chahine (1926–2008), diretor mais aclamado do Egito entre 1950 e 2007, conhecido por “O Destino” (1997) e “Alexandria … Why?” (Prêmio do Júri na Berlinale em 1979). Mas não se conhece muito do que o seu país tem produzido atualmente nas telas. Como anda o cinema egípcio? Há uma indústria forte? Há séries locais?
Andrew Mohsen:
Pelo público do festival já é possível perceber que as plateias mudaram, valorizando tendências diferentes das que imperavam antes. É claro que ainda existe uma dicotomia mercadológica entre o chamado “filme de festival” e o dito “filme comercial”. Mas hoje há um balanço entre as duas propostas, pelo menos no interesse dos espectadores. Não por acaso, nós trouxemos uma comédia como “Daughters”, para a competição oficial, para provar que nossos frequentadores gostam de rir. No geral, aqui, os jovens seguem sendo os mais interessados no cinema. O que mudou aqui é o fato de os filmes egípcios de maior sucesso de bilheteria, neste momento histórico, serem thrillers de ação locais e não mais tramas cômicas. Poderia citar filmes como “The Cell”, de Tarek El’eryan, ou “Al Jazeera”, de Sharif Arafah. No Egito, nossos blockbusters chegam a vender mais ingressos do que filmes de Hollywood. São, em geral, os filmes de orçamento mais alto de nossa indústria (cerca de US$ 6 milhões). Uma indústria que chega a produzir de 30 a 35 longas por ano. Numa analogia com o continente africano como um todo, perdemos, por exemplo, para Nollywood, a indústria da Nigéria, que produz exponencialmente mais (2,5 mil filmes por ano). Contudo, nós temos muita expressividade entre os países árabes. “Abu Saddam”, que vai numa linha mais autoral, é um dos filmes egípcios de maior acabamento que já tivemos no festival.
Existe no cinema latino-americano, sobretudo no brasileiro, uma cobrança histórica por um engajamento sociológico das narrativas, o que, tolheu nosso investimento em fantasias de verve escapista. Como essa realidade funciona no Egito?
Andrew Mohsen:
Também temos essa questão, pois a nossa produção de filmes fantásticos é pequena, mesmo tendo “As 1.001 Noites” como referência central da literatura árabe. Mas é mais uma questão de produção, de necessidade de investimentos, o que vem mudando. Por outro lado, contudo, não temos uma circulação forte de documentários, embora tenhamos bons filmes desse formato. Infelizmente, nossos .docs circulam mais por festivais e ficam bem pouco em cartaz. Por vezes, ficam dois ou três dias em circuito, apenas. Persiste uma cultura de que o circuito comercial existe para abrigar a ficção.

Qual é a representatividade política de ter um realizador duas vezes laureado com a Palma de Ouro (por “Underground – Mentiras De Guerra”, em 1995; e por “Quando Papai Saiu Em Viagem De Negócios”, em 1985) como o sérvio Emir Kusturica na presidência do júri oficial?
Andrew Mohsen:
Todo festival precisa de um ícone na liderança de seu time de jurados. E qualquer um que ama a narrativa cinematográfica ama Kusturica. Vejo e revejo seus filmes sempre. E é importante tê-lo neste momento em que precisamos demonstrar nossa crença no cinema, apesar dos efeitos da covid-19 e do boom dos streamings.

O .doc “From Cairo”: os filmes de não ficção ainda têm dificuldades de obter vaga no circuito egípcio

Neste domingo, graças ao bom trabalho da curadoria de Mohsen, o Cairo confere “El Rey De Todo El Mundo”, de Carlos Saura, o artesão cinemático maior da Espanha entre o fim dos anos 1960 e o início dos 80. Depois de uma passagem pelo Festival de San Sebastián com o curta “Rosa Rosae – La Guerra Civil”, o mítico realizador de “Cria Corvos” (1976) regressa aos longas com um musical de elementos documentais sobre a conexão cultural entre o México e os espanhóis que o colonizaram, sem ignorar violências históricas do imperialismo. Ana de la Reguera e Manuel Garcia-Rulfo são bailarinos que contam uma história de casal atropelada por opressões paternas e pela máfia local.

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