Primavera do Real com Ana Luiza Azevedo

Primavera do Real com Ana Luiza Azevedo

Rodrigo Fonseca

06 de novembro de 2020 | 09h48

A diretora Ana Luiza Azevedo

RODRIGO FONSECA
Embora esteja em um horário apenas no Rio (15h30) e dois em São Paulo (16h10 e 21h), todos na rede Espaço Itaú, “Aos Olhos de Ernesto” se impõe como um programa cinéfilo obrigatório, pela delicadeza de sua dramaturgia e pelo rigor de Ana Luiza Azevedo na condução dos planos. Nesse novo longa da diretora do aclamado “Antes Que o Mundo Acabe” (2009), Seu Ernesto, uruguaio radicado num Brasil ali do Sul, passa sua vida (e seu desejo de resistir) a limpo numa troca de correspondências com um amor de ontem. O papel central é dedendido por Jorge Bolani (de “Whisky”) com uma delicadeza nas raias do trágico, sob a direção de Ana Luiza. O roteiro é dela e do artesão das Letras Jorge Furtado, que esgrimam a dimensão imagética da palavra na busca por um relato de sentidos existenciais perdidos e quereres anestesiados. Esta noite, às 19h, ela e Jorge vão falar sobre sua parceria no seminário online Na Real_Virtual, organizado no site https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2 pelo diretor Bebeto Abrantes e pelo crítico Carlos Alberto Mattos. Vai ser o mapear de uma história que tem a Casa de Cinema de Porto Alegre como seu epicentro.

Ao longo de quase três horas de papo, o debate com Mattos e Abrantes vai usar como eixo o filme “Quem É Primavera das Neves”, de 2017, que a diretora pilotou em parceria com Furtado, inspirada pela beleza do nome de sua personagem. O que vemos é um perfil da tradutora de origem portuguesa
Primavera Ácrata Saiz das Neves (1933-1981). No longa, Ana e Furtado revisitam o legado de traduções dela, relendo seus poemas e suas cartas (a partir de uma lúdica intervenção da atriz Mariana Lima), reconstituindo sua trajetória por meio de depoimentos do ex-marido de Primavera, Manuel Pedroso Marques, e de duas grandes amigas delas, a artista plástica Anna Bella Geiger e a bibliotecária Eulalie Ligneul.

Teu belo “Aos Olhos de Ernesto” é uma geografia de afetos que oxigena a nossa mediação com o drama. Mas qual é o lugar do real numa narrativa como essa? O que cabe de realismo ou mesmo de realismo documental no olhar praquele mundo?
Ana Luiza Azevedo:
Em “Aos olhos de Ernesto”, eu parto da observação do real, da observação das limitações, dos gestos, do sentimentos não ditos ou não compreendidos, do ser estrangeiro e solitário. Depois de ficcionalizada, a representação volta a se conectar com o real. Junto com os atores, busco entender como aqueles personagens agem, como se movimentam. Trabalhamos para entender qual o gesto e a ação que diz o que o personagem não consegue dizer. Como alguém que está ficando cego se movimenta para que o outro não perceba a real gravidade da sua cegueira. E, algumas vezes, a ficção nos leva a entender melhor uma situação real. Talvez por tentar traduzir o que tem por trás do gesto. Bourdieu diz que “Roma, cidade aberta” retrata melhor a guerra do que qualquer documentário.

O que o filme “Primavera das Neves”, feito em parceria com o Jorge Furtado, trouxe para você de reflexão acerca da estética documental?
Ana Luiza Azevedo:
Cada história exige uma forma de ser contada. “Primavera das Neves” nasceu de duas buscas. Uma foi a busca do Jorge para saber quem é Primavera da Neves, tradutora de “Alice no país da maravilhas”, e a busca de Eulalie por alguma referência da amiga na internet. A carta que Eulalie escreveu para o Jorge nos fez acreditar que teríamos que continuar a busca e documentar esta história. Quanto mais conhecíamos da Primavera, mais tínhamos a certeza de que sua vida e seus poemas não podiam cair no esquecimento. Este era o nosso norte. Não seria um documentário que partiria de um dispositivo, ou de uma pesquisa estética. Seria um documentário que entendia, principalmente, a sua responsabilidade com a construção de uma memória.

Como é que a sua parceria com o Jorge Furtado funciona em termos de metodologia de criação de roteiro?
Ana Luiza Azevedo:
Não tem uma metodologia única. Depende de cada trabalho. Mas geralmente criamos a escaleta juntos e nos dividimos para escrever. O que um escreve, manda para o outro. Relemos juntos o que foi escrito, fazemos nova discussão e redividimos o trabalho. Em “Aos olhos de Ernesto”, o Jorge entrou quando eu já estava com a história estruturada e com uma versão do roteiro escrita. Fizemos uma discussão do que era essencial para história, e o que não estava funcionando. Voltamos para redefinir a escaleta e reescrevemos as cenas. Quando é um roteiro que eu vou dirigir, ainda sigo escrevendo sozinha a partir das leituras e dos ensaios com os atores. Às vezes um olhar, ou um silêncio é mais potente e diz mais do que um diálogo.

Como é a escrita de roteiro e mesmo a concepção de dramaturgia para um documentário?
Ana Luiza Azevedo:
Normalmente, o roteiro (ou o pré-roteiro) de um documentário é apenas uma indicação para começar o trabalho (para convencer quem vai pagar o filme e o que temos que buscar na pesquisa). A definição do que vai ser o filme vem só depois da filmagem. Aí, sim, a gente cria um roteiro para a montagem, que vai transformar o filme mais uma vez. E o Giba Assis Brasil, montador, é o grande responsável, junto conosco, por este momento de recriação. Em “Primavera das Neves” começamos com um roteiro que o Jorge e o Pedro Furtado fizeram a partir das leituras de traduções e os poemas da Primavera. Mas o que definiu o filme foram as conversas com os três entrevistados.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: