Prequela de ‘Sopranos’ na HBO Max

Prequela de ‘Sopranos’ na HBO Max

Rodrigo Fonseca

06 de novembro de 2021 | 10h35

RODRIGO FONSECA
Enfim o prelúdio de “A Família Soprano” chegou ao Brasil, via HBO Max. É um dos thrillers mais tensos de um ano que nos deu “No Sudden Move”, de Steven Soderbergh, e “Wrath of Man”, de Guy Ritchie. O gênero anda em alta.
Idealizado como um analgésico pra saudade que a gente sente da Família Soprano, “The Many Saints of Newark” vai muito… mas muito… muito mesmo… além de um mero derivado de uma das dramaturgias de maior sucesso da televisão em toda a História, apoiado num sol chamado Alessandro Nivola. Lembrado por seu trabalho como Pollux Troy, o irmão fragilizado de Nicolas Cage em “A Outra Face” (1997), o ator de origem teuto-italiana devora cada segundo que tem em cena, nesta prequela da saga de Tony Soprano. Ele interpreta o tio mais querido do mafioso: Richard “Dickie” Moltisanti, o pai de Christopher, o feérico bandido de fala tensa que consagrou Michael Imperioli. Com um visual à la Jeffrey Hunter, Nivola desenha a perversão que sustenta o clã Soprano a partir de esquemas de enriquecimento ilícito e de um código beeeem particular de honra. Um código que vai na contramão da bestialidade de seu pai, Hollywood Dick, papel que Ray Liotta esculpe com cinzel de ourives. Desde “CopLand” (1997), o astro de “Os Bons Companheiros” (1990) não fazia algo tão bom, dividindo-se ainda num segundo personagem, um presidiário que é gêmeo de Dick. Jon Bernthal, o Justiceiro, vive Giovanni Soprano, a força paterna por trás de toda a confusão de sentimentos no coração de Tony, imortalizado na televisão por James Gandolfini (1961-2013). O filhe dele, Michael Gandolfini, de 22 anos, é quem assume a tarefa de (nos) revelar os anos de formação de Anthony Soprano, em sua fase de galeto ao belo canto. A trama nasce do legado serializado por David Chase, sendo dirigido com mãos de pluma por Alan Taylor, um dos bambas da direção de seriados, que pilotou nove episódios com o Sr. Gandolfini, entre 1999 e 2007.

Fora seu vasto trabalho pra HBO em “Game of Thrones”, o realizador comprovou ser apto para rodar sucessos do cinema ao dirigir “Thor: O Mundo Sombrio” (2013), um dos melhores longas da Marvel. A maneira como Taylor decupa cada plano preserva a estrutura narrativa televisiva, com o luxo de usar a canção “Woke Up This Morning” – tocada pelo grupo Alabama 3, nas aberturas da série – num momento de apogeu deste filmaço. Ao mesmo tempo em que sua forma de narrar soa familiar a tudo que os fãs de Tony aprenderam a amar, ela dialoga com as cartilhas dos filmes de máfia, evocando, em especial, “Donnie Brasco” (1997), de Mike Newell. Tem algo do Scorsese de “Mean Streets” (1973) também.

Visto pelo P de Pop numa sala de exibição da Inglaterra, o Lexi, um cineminha de bairro de Londres, na Chamberlayne Rd., perto do Queen’s Park, “Muitos Santos de Newark” (o título no Brasil) resgata toda a tradição do gangster movie. Sua trama se ambienta entre os anos 1960 e 70, centrada numa série de protestos raciais em Nova Jersey. As manifestações contra o feroz racismo daquele local acabam engajando a bandidagem também. Um dos “colaboradores” habituais dos Sopranos, Harold McBrayer (vivido por Leslie Odom Jr. com uma fúria contagiante), vai participar do conflito para dar um basta ao sistema de segregação imposto pelos brancos – sobretudo pela Polícia. Nessa participação ele vai virar um futuro rival de Dickie (Nivola) & cia. McBrayer é um oceano de complexidade, misturando idealismo, indignação e um desejo de vencer na estrutura do crime. Odom Jr. faz dele uma usina viva de debates sociais reais em um enredo de ficção centrado na humanização de uma célula criminosa.

Sangrenta, a rivalidade inaugurada por McBrayer vai sendo desenhada no roteiro de Lawrence Konner (de “Boardwalk Empire”) aos poucos, em especial na porção do longa dedicada aos anos 1960. É o momento em que Dickie (Nivola) reencontra o pai (Liotta), que volta da Itália casado com a aspirante a cabelereira Giuseppina, figura cheia de complexidades que Michela De Rossi compõe com uma retinta paleta de cores na depuração de seus afetos. Giuseppina vai detonar múltiplas viradas na história de Dickie. Ele é o real protagonista do longa, na sinuosa montagem de Christopher Tellefsen, que gravita entre picos de febril adrenalina e vales de calmaria, onde podemos ver os mínimos detalhes da psiquê dos personagens centrais. A fotografia de Kramer Morgenthau é bastante apolínea nesses momentos, assumindo enquadramentos mais dionisíacos (com chiaroscuros, com jogos de sombras) nas sequências de ação. Apoiado no preciso trabalho de seu montador e de seu fotógrafo, Taylor consegue administrar a vasta fauna de personagens que tem sem jamais perder o foco no processo de formação de Tony, que Michael Gandolfini molda como sendo um rapaz cheio de retidão, mas atropelado pelos hormônios de sua “aborrescência”. Ao seu lado, ele tem um vetor de empuxo poderoso: a atriz Vera Farmiga. É ela que encarna a vil figura de Livia Soprano, a Lady Macbeth de David Chase, interpretada na série por Nancy Lou Marchand (1928-2000). No Lexi, cada aparição dela, sempre cercada de segundas e terceiras intenções (em relação ao filho), era celebrada. Mas nada se impõe mais do que o desempenho de Nivola, digno de indicação ao Oscar, como, aliás, todo o filme merecia ser. Rodado em 2019, antes da pandemia, o filme confirma toda a exuberância da HBO Max na peleja da streaminguesfera por assinantes. Se você espera apenas um episódio a mais da série, um episódio alongado, vai ter uma baita (e bela) surpresa.

Querendo conhecer mais o trabalho de Nivola, veja “Desobediência” (2017), do chileno Sebastián Lelio, no qual ele interpreta um candidato a rabino. Trata-se de um ator potente que ganha, enfim, uma chance de explorar toda a sua inteligência cênica.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.