Prêmio Teddy para a etnografia do afeto nacional

Prêmio Teddy para a etnografia do afeto nacional

Rodrigo Fonseca

24 de fevereiro de 2018 | 07h04

Linn da Quebrada em “Bixa Travesti”, boca a boca quente. Foto: Nube Abe

Rodrigo Fonseca
Dois filmes brasileiros conquistaram o Teddy, ursinho serelepe que, há três décadas, é um signo de afirmação das identidades trans e homoafetivas, a partir do Festival de Berlim, que, em sua 68ª edição, confiou a láurea a Tinta Bruta e Bixa Travesti. Ambos trazem à tona uma tendência cada vez mais potente de nossa dramaturgia em relação à multiplicidade do universo LGBTQ: a etnografia dos afetos, consolidando uma espécie de geopolítica da lealdade. O processo começou há dez anos, com os curtas e Café com Leite, e ganha cada vez mais complexidade “biopolítica”, dando ao corpo um relevo que a virtualidade contemporânea das relações e dos valores relegava a um segundo plano. Ao ser premiada, a ficção de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon – sobre o rapaz GarotoNeon e suas estratégias de desafio à solidão em chats – compartilha com a Europa não apenas um discurso de aceitação e de busca por parcerias, mas sobretudo o amadurecimento visual de um dos maiores fotógrafos do país: Glauco Firpo. Já o documentário de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman afia o corte da delicadeza do processo de edição do casal, atento ao papel estético da performance dentro da linguagem do cinema. A julgar pelo boca a boca apaixonado que ambos os filmes tiveram aqui (Bixa… é falado em todas as rodas de bar há sete dias; Tinta… esgotou todas as suas sessões), mais prêmios estão a caminho.

Enquanto isso… O Processo, atestado de óbito da democracia nacional dirigido por Maria Augusta Ramos com base em quase 400 horas de material filmado a partir dos julgamentos do Impeachment de Dilma Rousseff, continua incendiando debates por todo lado na capital alemã. Mas é unânime a percepção de que o trabalho de edição de Karen Akerman é um marco na história da montagem do cinema nacional.

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