Prêmio Platino: ‘A Noiva do Deserto’, estreia de luxo no Oscar latino

Prêmio Platino: ‘A Noiva do Deserto’, estreia de luxo no Oscar latino

Rodrigo Fonseca

29 Abril 2018 | 12h02

Paulina García cai na estrada no drama  “A Noiva do Deserto”

Rodrigo Fonseca
Às 23h deste domingo, o Canal Brasil transmite a festa do Troféu Platino, o Oscar da latinidade, cuja edição 2018 será realizada no complexo hoteleiro XCaret, em Cancun, na Riviera Maia do México tendo o analgésico La Noiva Del Desierto, já em cartaz em solo brasileiro, como favorito da categoria de renovação: o prêmio de Melhor Filme de Estreia. Experientes em múltiplas funções em sets, em especial como assistentes de grandes cineastas, as argentinas Cecilia Atán e Valeria Pivato estreiam na direção de longas com esta belíssima história de amor protagonizada pela chilena Paulina García (de Gloria). Seu lançamento mundial se deu na mostra Un Certain Regard de Cannes e sua trama funciona como um atalho de leveza na estrada tragicômica da desilusão dos que abriram mão do sonho. No Rio, a produção foi esquadrinhada pelas atrizes Bianca Joy Porte e Simone Kalil em uma projeção no Reserva Cultural, organizada pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ). Em solo nacional, este drama de amor foi distribuído pela Imovision com o título literal de A Noiva do Deserto e vem agradado o público com sua singeleza.
“Tem muita gente que vê conexões entre nosso filme e Central do Brasil, de Walter Salles, mas essa ligação vem mais porque ambos tratam de mulheres já maduras na estrada, e não por uma escolha fortuita nossa. Sob essa lógica, também há muito de Paris, Texas nele”, diz Cecilia ao P de Pop em Cancun. “Este é um filme de sutilezas”.

Produção foi lançada em Cannes em 2017

No roteiro esmiuçado pela dupla ao longo de três anos, o momento de maior beleza plástica e dramatúrgica se dá pela fresta da janela de uma bodega de beira de rodovia, de onde se vê um esboço de jantar romântico entre a faxineira Teresa (Paulina) e o mascate Gringo (Claudio Rissi, dono de uma voz rascante única, à la Paulo César Peréio). Na direção de arte e na fotografia, construídas a partir de uma geometria retangular de perfeita simetria, vemos copos, pratos, uma luz meio avermelhada, um tom de fossa e um bolero na vitrola. Mas o que existe de mais singular é um espelho. É o espelho que desvela intenções e fraquezas, de Gringo sobretudo… e do casal que ele almeja formar com a mulher sem lastro e sem sorrisos à sua frente. Depois de anos refugiada em um trabalho em uma casa em Buenos Aires, Teresa, que deixou o filho no Chile e foi para a Argentina ganhar a vida, agora precisa dar uma guinada em sua rotina, uma vez que seus patrões venderam a cada onde ele fincou as raízes de sua invisibilidade. Sabemos disso por flashes que funcionam como respiros para o roteiro. Flashes de desdém entre classes sociais, parecidos com a mirada social do brasileiríssimo Que Horas Ela Volta? (2015) – afinal, a diferença classista é comum a todos nós, latinos.
“Construímos a narrativa com muito respeito ao realismo e ao legado do cinema documental, mas buscando, a partir dos instrumentos da ficção, encontrar a poética da vida comum, estabelecendo uma relação do público com nossos personagens”, diz Valeria, em um papo nas cercanias do XCaret. “A plateia pode simpatizar com Teresa e Gringo pela proximidade deles com nossas fragilidades”.
O resultado dos Platino vai ser anunciado até 1h da madrugada desta segunda (no horário do Brasil), sendo que Uma Mulher Fantástica (Chile) é o título mais cotado a sair daqui cheio de troféus. Ele já levou o prêmio de júri popular.