Prêmio para ‘A Teus Olhos’ na Mostra de SP coroa o debate sobre o ódio nas redes sociais

Prêmio para ‘A Teus Olhos’ na Mostra de SP coroa o debate sobre o ódio nas redes sociais

Rodrigo Fonseca

04 de novembro de 2017 | 10h30

Instrutor de natação, Rubens (Daniel de Oliveira) é acusado de ter beijado um aluno de sete anos pelo pai do menino, papel que explora todo o talento trágico de Marco Ricca em “Aos Teus Olhos”

Rodrigo Fonseca
Depois de duas semanas de júbilo cinéfilo, a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, marcada por uma das mais vigorosas seleções da história recente do evento, chegou ao fim deixando como saldo o Prêmio Petrobras para um filme que se faz obrigatório nestes tempos de cultura do ódio: Aos Teus Olhos. É um filme sobre o linchamento de um professor acusado de assédio que se deflagra a partir de uma troca de mensagens por celular, nas redes sociais. Estas andam tendo um protagonismo selvagem no julgamento público da vida pública e até da privacidade alheia. Estamos inseridos atualmente num torvelinho de fúria, associado a essas mídias digitais, em torno da campanha de punição contra o ator americano Kevin Spacey. Desde que sua conduta sexual se tornou assunto do mundo – a partir de um desabafo acusatório do também ator Anthony Rapp, que se disse acossado e abusado pelo colega, nos anos 1980 -, há um movimento de espancamento coletivo na web clamando pela extinção de qualquer respeito possível pelo homem que encantou toneladas de cinéfilos à frente de Beleza Americana (1999). É inegável o erro de Spacey e ele merece ser punido pelo que possa ter feito de errado (chove uma tempestade de acusações contra ele na atualidade, por parte de seus companheiros de House of Cards). Mas há que se pensar nesse afã de linchar celebridades que hoje corre pelo Facebook. E, nesse aspecto, o belíssimo longa-metragem de Carolina Jabor funciona como um divã para esta neurose coletiva do nosso mundo. Seus personagens são espelhos de nossas dúvidas e mesmo de nossas culpas. Pensando sobre ele, lembra-se de Brecht:

“Mais violentas do que as águas de um rio que tudo arrastam são as margens que as cerceiam”. O filme de Carolina é sobre a brutalidade da represa.  

Como? Bom…

É difícil saber, com exatidão, o que se passa na cabeça e no coração do personagem de Marco Ricca no inquietante Aos Teus Olhos, uma vez que é da natureza esfíngica de composição desse ator tirar do espectador qualquer certeza, levando-o a imersão numa terra pantanosa onde todos os sentimentos são fluidos e comburentes. Mais ou menos como é a piscina que serve de cenário – e de metonímia – a este filme. Um filme tenso (na montagem-gangorra de Sergio Mekler) sobre a mecânica do ódio em rede (social). Filme que usa uma hipótese de pedofilia como gatilho para um debate sobre outro desejo que não o sexual: o tesão da opinião… a opinião que cala a do próximo. E nesse dispositivo, esta releitura brasileira da peça O Princípio de Arquimedes (2011), do catalão Josep Maria Miró faz ferver a temperatura autoral da obra de Carolina Jabor, revelando um traço temático e narrativo que já se fazia notar em seu afrodisíaco Boa Sorte (2014): o interesse pelo limite da tolerância. Tem ecos disso em O Mistério do Samba (.doc codirigido por Lula Buarque de Hollanda exibido em Cannes em 2008): o lirismo portelense é a resistência à perda de poesia da Madureira idílica com a violência suburbana. Mas aqui o eco tem reverberações mais desconjuntantes, gravitando da suspeita ao revanchismo bruto numa estética que lembra cinema polonês (é Não Matarás na veia).

Ganhador do prêmio de júri popular na Première Brasil do Festival do Rio, Aos Teus Olhos rendeu ainda o Troféu Redentor a Ricca (melhor coadjuvante), a Daniel de Oliveira (melhor ator, empatado com Murilo Benício, por O Animal Cordial) e ao roteiro inflamado de Lucas Paraíso, um dos autores mais disputados do país hoje. É da natureza dele apostar no silêncio da imersão, como se vê nas cenas de Gabriel e a Montanha, filme premiado em Cannes também escrito por ele. Na toada de seu script para Carolina, é difícil saber em qual angústia apostar: se na do pai (Ricca) obrigado a tomar uma atitude extremada – mesmo sem ter certeza do que a motiva – diante da hipótese de seu filho de sete anos ter sido beijado pelo professor; ou se na do tal instrutor (Daniel, com um olhar de assombro à la Jean-Louis Trintignant em Um Homem, Uma Mulher), acusado pela sociedade de pedófilo. Entre os dois atores, vemos um baile de dribles. O bailado ganha uma dimensão quase filosófica conforme vamos percebendo imperfeições e falhas trágicas de cada um. O pai é um machista ausente na criação do filho, mas amoroso ao extremo ao ser confrontado com feridas em sua cria. O ás da natação tem na vaidade apavonada e no olho faminto sobre garotinhas de shortinho seus pontos fracos.

Longa-metragem demarca a potência autoral de Carolina Jabor na direção e de Luca Paraíso no roteiro

Numa alquimia rara de se ver entre diretora e roteirista, vemos uma comunhão a mais nos personagens que se extremam: ambos tem mulheres de fibra, de ação, que não se rendem ao eclipse da dúvida. E essas figuras femininas valorizam as participações de Luísa Arraes e Stella Rabello (um achado), ambas farpadas como o arame que separa seus amados do insólito do mundo. Falando em mulheres, Malu Galli tem apoteoses no papel da diretora do clube esportivo onde o possível abuso sexual se deu. Com uma inteligência no domínio da pressão que evoca sua performance teatral em Nômades, encenada aqui em 2015, Malu é o ponto de contato da incerteza da ficção com a nossa incerteza de espectador. É ela quem vem humanizar um fio explosivo de acusação e de culpa imputada que o roteiro alimenta num jogo com as redes sociais. Na linguagem, Carolina carrega o filme de recursos gráficos de diferentes mídias, sobretudo o vicioso “zap-zap”, no qual Paraíso presta uma homenagem (merecida) à sua tutora: a crítica de teatro e professora da PUC-RJ Claudia Chaves, uma das mais agudas analistas da mediocridade nossa de cada dia, citada (com humor) entre os nomes que cobram justiça contra o professor. É o Real invadindo a fábula, num projeto que contou com o acompanhamento de um ourives do drama: George Moura (de Redemoinho).

 

E fábula aqui é um termo justo, pois trata-se de uma jornada em busca de uma moral. É uma jornada que a cineasta (inteligentemente) não limita a um clímax, mas sim dilui por todo o longa. A diluição se dá seja mostrando a traição do mais próximo colega do professor (papel dado a Gustavo Falcão), seja num inquérito onde plano e contraplano saem das CNTPs do nosso cinema pelo ritmo da edição. A presença da Lei, na figura de um investigador interpretado (na medida precisa de ironia) por Rodrigo dos Santos, dá a deixa de que a moral (e não a ética) é soberana aqui. E a moral é fluida. E se alimenta    

de impressões. Por isso, este M – O Vampiro de Düsseldorf subtropical não vai para o flanco do expressionismo e sim do sensacionalismo mais espetaculoso, que agride como forma de se fazer ver.

 

Se em Boa Sorte, um menino ficava invisível para se fazer enxergar, aqui, Carolina dá visibilidade absoluta a impaciências que nos impedem de refletir sobre o que vemos, aceitando a imagem pronta. Diferentemente do sublime A Caça (2012), de Thomas Vinterberg, com quem compartilha patologias, aqui os fatos não absolutos. Talvez só um: a convulsão histérica de se fazer das redes sociais um campo de guerra e não espaço de troca. Lugar de falar virou plenária de acusação. Esse é o conflito de nossa Contemporaneidade. Um conflito agora… aos teus olhos, que encantou o júri da Mostra de SP por seus méritos múltiplos.

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