‘Prazer, Camaradas’ no DocLisboa

‘Prazer, Camaradas’ no DocLisboa

Rodrigo Fonseca

19 de outubro de 2019 | 10h34


RODRIGO FONSECA
Maior fórum ibérico sobre representação e apreensão do Real em forma de filme, o DocLisboa, que abriu sua edição de 2019 na quinta, foi buscar na seleção do último Festival de Locarno a prata da casa. Neste ano em que o Leopardo de Ouro foi para Pedro Costa e seu “Vitalina Varela”,
o primeiro grito de “tela à vista!” a ser berrado de uma boca portuguesa no maior evento cinéfilo da Suíça foi disparado por José Filipe Costa, o realizador do premiado “Linha Vermelha” (2012), de volta como piloto de “Prazer, Camaradas”, uma jóia ainda inédita em circuito comercial. É um misto de .doc, ficção, poesia e lamento pelas feridas que a Revolução dos Cravos nos fez ver, em 1975. O diretor exibe agora no DocLisboa esta radiografia, em forma de jogral, que do 25 de Abril, dando voz aos estrangeiros que chegaram à Península Ibérica após a agitação revolucionária, a fim de participarem da convulsão política daquela pátria. Mas o machismo, a submissão e múltiplas modalidades de moralismo atrapalharam essa turma de outras terras.

Qual é a dimensão entre realidade e fantasia que coordena a “encenação” entre seus depoentes/personagens de “Prazer, Camaradas”, na medida em que passado e presente se misturam em sua narrativa?
José Filipe Costa: Não existem fronteiras entre realidade e fantasia no filme. Diria que o que se encena em “Prazer, Camaradas” é o teatro da memória. Os actores com a idade que tem hoje fingem serem mais novos e essa postura é que desencadeia a memória. A linguagem e a gestualidade é de hoje mas também do passado: é uma mistura que não dá para destrinçar.

Qual é a ideologia que sobrou da situação histórica retratada pelo filme, na revisão crítica do 25 de Abril?
José Filipe Costa: Sobrou e muito. Por exemplo, a desigualdade de género retratada no filme, está ainda presente na diferença salarial entre homens e mulheres. Portugal tem uma taxa de violência doméstica bastante alta. Há alguns aspectos que não mudaram assim tanto. Assim, se por um lado, foi na revolução que se espicaçaram consciências para uma abertura nas relações, na esfera da intimidade, também é nela que damos de conta do incontornável, do que é mais imutável e ainda continua.

Para seu encerramento, no dia 27, o DocLisboa foi buscar mais um mimo de Locarno. Calcado no carisma de um ator não profissional como protagonista (o jurista Miguel Lobo Antunes) e num inusitado misto de ironia e leveza, a comédia musical “Technoboss” fez um levante contra os formalismos mais semióticos do cinema autoral europeu nas telas do evento suíço, em agosto, o que deve se repetir agora em Portugal. Se no nietzschiano “John From”, o diretor João Nicolau mapeava a primavera de uma vida (a mocidade), aqui ele se concentra no outono do viver, mas sem o peso do tempo, fazendo um “Cantando na Chuva” sobre entraves do progresso e das relações sociais.

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