‘Pós-F’: uma estrela que sabe ser pra sempre

‘Pós-F’: uma estrela que sabe ser pra sempre

Rodrigo Fonseca

13 de setembro de 2020 | 11h49

Rodrigo Fonseca
Mascando “Space Oddity” e os “99 Luftballons” de Nena, flutuante entre (di)lemas como “A compaixão é um sentimento que se educa” e “Procuro me aprimorar em mim”, Maria Ribeiro flana entre as memórias da escritora Fernanda Young (1970-2019) como uma esfera prateada de pinball à cata de um buraco (pra chamar de seu) e de pontos para marcar. E o que “Pós-F.” mais faz é marcar pontos na saudade da gente… e na gincana de que a milenar arte de Sofocles hoje participa… via web… para se adaptar aos protocolos do mundo pandêmico. Na velocidade do coelho Ricochete, MR torna elásticos os espaços da caixa cênica fractal que a diretora Mika Lins molda numa narrativa anfíbia (meio Eurípides, meio Peter Greenaway) de teatro, jira e videoarte – em cartaz digitalmente no palco do Teatro Porto Seguro. Tem neste domingão, às 20h, e vale ser visto por múltiplas razões, destacando-se com “dêzão” maiúsculo a sonoplastia de Rodrigo Gava. Mas, das muitas relevâncias deste “Shirley Valentine” versão The Smiths, impõe-se a demarcação de La Ribeiro como uma micareta de uma pessoa só, jogando nas onze do gramado da invenção.
Não bastasse todas as erupções que dá quando atua, vide o escalda-pés “Como nossos pais” (2017) e a série (a chegar) “Desalma” (vista e aplaudida na Berlinale), ela ainda dirigiu um dos mais relevantes documento/ário/s sobre o Desfiladeiro das Termópilas onde o Brasil se encontra desde a última eleição: o filme “Outubro”. Há tempos, desde “Vinte e cinco” (2003), ela se arrisca pelas veredas da direção, tendo emplacado outros dois longas como documentarista. Um falava sobre seu mestre (e de outros tantos), Domingos Oliveira (o analgésico “Domingos”, de 2011), e o outro falava sobre uma banda que deu voz ao nosso Mal do Século (“Los Hermanos: Esse É o Só o Começo do Fim da Nossa Vida”, de 2015). Filmou-os, assim como “Outubro”, sem deslumbres, fugindo de obviedades de linguagem. Porém, naquela lógica “do pop vieste, ao pop voltarás”, a pac-woman que devorava inércias cênicas em “Confissões de Adolescente” (1995) e “Capitu” (2000) regressa ao teatro, no momento em que este mais se convulsiona em busca de novas práticas, para um judô no tatame do audiovisual. Sua peça tem algo de jovi… de Young…, como a alma de sua homenageada, em sua brincância com as palavras e as representações do Real, mas também algo de Ésquilo, na percepção (e na tradução) do trágico nosso de todo dia, expresso no memorialismo da relação entre FY e seu marido, o roteirista Alexandre Machado. Se “o amor é a tragédia de esperar pelo perpétuo”, como disse a certa monta a diretora belga Chantal Akerman, melhor (e mais romântico) uso do trágico do que “ele é meu supletivo (…) minha pós-graduação (…) ele me ensinou a pontuar” não há. E isso é dito no espetáculo. E, no seu dizer, Maria nos engasga.

Maria Ribeiro é uma micareta de uma pessoa só – Foto de Bob Wolfenson

Espasmos afins, naquela nossa glândula que lacrimeja, acontecem durante os 50 minutos em que a atriz, sob a fantasmagoria da (doce) luz de Caetano Vilela, executa uma espécie de “primeiro cinema” no teatro, vivificando memórias de uma autora que cerzia metáforas (“O Pau”) e transformava vivências em amigurimis (“Efeito Urano”), mas sem melancolias. No Primeiro Cinema, de 1896 a 1927, o PB e o gestual quase pantomímico faziam do retângulo da tela um palco para um tipo de exercício “motovisual” no qual o tempo do filme suspendia o tempo real num uso lúdico da Física. Como Walter Benjamin dizia, nesse exercício “a humanidade se prepara para sobreviver à civilização”. O exercício na luz à la “Aurora” de Murnau, de Caetano, é, também uma preparação, para que a gente resista ao ordinário pela via do sonho. Não por acaso, Maria resgata de Fernanda o sentimento do mundo “Em Niterói, ser livre é tão improvável quanto virar astronauta de da Nasa”.
Num trecho, MR arrota um “não tenho medo da Morte” vestida com as roupas, as armas e os barões assinalados de FYoung. É uma declaração de guerra ao quê de melancólico que reside nas biopics, termo usado na indústria cinematográfica para recortes biográficos. Não há dúvida de que “Pós-F.”, nos escritos de Fernanda, é autobiográfico… é uma autópsia em corpo vivo. Mas o que vemos na revisão cênica desse “eu fui; eu fiz” não é – contrariando a predisposição inata do biopic – um registro póstumo e, sim, um gerúndio, um “eu sou; eu faço”, mostrando que uma grande romancista e cronista não morre: serena e orvalha. O “Pós-F.” de Maria é orvalho, é atabaque e não lamento, em parte por Mika Lins nos apresentar uma direção que parece tão interessada em investigar as possibilidades poéticas expressivas do espaço do Porto Seguro e do espaço da virtualidade quanto em explorar os bastidores dos verbos de Fernanda. Investigação essa que começa numa projeção de cataventos, passa por um labirinto de desenhos, sacraliza a “Vaca profana” de Caetano e se eterniza num aforismo: “Dor não é necessário para se alcançar coisa alguma”. Mika/Maria fazem no teatro algo próximo do que Todd Haynes fez, no indie cinema, com seu “I’m Not There” (2007): ali, não vale o Bob Dylan à vera, mas, sim, um devir Dylan. Maria, em cena, não é Fernanda…. mas, sim, um devir FY, um vir a ser de alguém que passou pela Literatura Brasileira atomizando a olavobilaquice da ABNT estética. Passou mas não sumiu… e não só por seu livros, programas de TV (“Os Normais”) e filmes estarem aí… Fernanda ficou e fica a cada vez que a estrela bailarina (que canta e dança) de suas ideias sacode o ventre na firme atuação de Maria Ribeiro.

Tenta ver “Pós-F.” esta noite. É uma lufada de resistência, um afago no músculo retesado das artes cênicas nacionais, resiliente diante dos desafios e dos hiatos que a pandemia trouxe. DE toda forma, a peça cumpre uma temporada online até 4 de outubro, com sessões aos sábados e domingos às 20h, sendo transmitida via streaming diretamente do palco.

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