‘Port Authority’ nas telas e plataformas dos EUA

‘Port Authority’ nas telas e plataformas dos EUA

Rodrigo Fonseca

04 de junho de 2021 | 14h23

Rodrigo Fonseca
Ao anunciar a seleção dos concorrentes de sua 74º edição, a ser realizada de 6 a 17 de julho, sob um leonino esquema de segurança contra a covid-19, Cannes incluiu na competição oficial pela Palma de Ouro um longa-metragem com o Brasil no DNA de produção: “Bergman Island”. A direção é da parisiense Mia Hansen-Løve, com Vicky Krieps e Tim Roth envolvidos na história de um casal que visita a Ilha de Faro, na Suécia, em busca de escrever roteiros na terra que o diretor de “O Sétimo Selo” (1957) escolheu como lar. A produção é da RT Features, que saiu da Croisette, há dois anos, com o Prix Un Certain Regard, dado ao melodrama “A Vida Invisível”, e o prêmio da Crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) ao thriller psicológico “O Farol”. Ambos já estrearam mundialmente, inclusive aqui. Mas há um longa da RT, com a grife de Rodrigo Teixeira, que só estreou comercialmente nas Américas há uma semana, tendo chegado a plataformas digitais no dia 1º: o doce “Port Authority”. Dirigido pela estreante Danielle Lessovitz, que filmou em Nova York apoiada por um mito do cinema, o diretor Martin Scorsese, o longa surpreendeu as plateias de Cannes, em 2019, pela delicadeza com que encara o preconceito de gênero.
Danielle narra o enamoramento entre o jovem Paul (Fionn Whitehead) e Wye, diva adolescente de um grupo de dançarinos gays, vivida por Leyna Bloom. A relação entre eles corre no auge do encantamento até que ele descobre que ela é uma mulher trans.
“Padrões e rótulos estão sendo derrubados por novas formas de vivência e pelo amor. Não existe nada mais bizarro no mundo de hoje do que a ideia antiquada de ‘normalidade’ na identidade sexual, sendo ‘norma’ o padrão de homem e mulher cis. Foi inquietante, em certo momento perceber que, diante de um movimento tão potente visualmente como é o vogue, estávamos menos interessados em filmar danças e mais preocupados em falar de diferenças no jogo das relações amorosas”, disse Danielle ao Estadão. “A homo e a transfobia ainda são sequelas da masculinidade, que a gente precisa derrubar festejando diferenças”.

Ao longo do processo de cartografia daquele universo de dança e de afirmação, a diretora teve a ajuda de Scorsese por meio de conselhos. Na passagem por Cannes, ela contou ao P de Pop que “embora o meu filme não traga um universo que Marty filme, fala de um mundo que ele respeita e quer entender mais”. Para montar seu elenco, Danielle buscou uma trupe de intérpretes não conhecidas do público. Seu esforço era evitar que a fama de algum ator conhecido pudesse ofuscar a relação de descoberta que tenta retratar.
“Relações transgênero em Nova York são bem comuns. Mas em muito lugar do mundo, jovens cis ainda se sentem ‘menos homens’ por amarem mulheres que aparentam um traço masculino de base no corpo”, diz Danielle. “Meu desejo era quebrar barreiras e diluir a intolerância. Esse filme é uma reflexão sobre a importância de assumirmos erros e desmesuras e aprendermos com nossos tropeços”
Quem vai abrir Cannes este ano é “Annette”, de Leo Carax. O Brasil vai comparecer no evento ainda com o .doc “O Marinheiro das Montanhas”, de Karim Aïnouz.

p.s.: Autora do livro “Literatura infantil e juvenil: aprendizagem e criação”, que acaba de ser lançado pela Semente Editorial, a professora Cintia Barreto ministrará o curso online “Oficina de Escrita Criativa: o Poema”, nos dias 9, 16, 23 e 30 de junho, das 18h às 21h. Os autores abordados vão de Adélia Prado a Arnaldo Antunes, passando por Sérgio Vaz e Carlos Drummond de Andrade, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, entre outros, incluindo a própria professora, também poeta. A oficina inclui teoria, prática, com atividades de escrita criativa. Informações e inscrições: (21) 989856232 (whatsapp) ou professora@cintiabarreto.com.br.

p.s.2: Primeira realização audiovisual do Teatro Inominável, “E a Nave vai” terá sua última exibição neste sábado (05/06), às 19h, com legendas em português, no canal do YouTube do grupo (https://youtube.com/TeatroInominável). Com dramaturgia e direção de Diogo Liberano, o filme reflete sobre o descontrole que temos diante de uma paixão. O filósofo Spinoza chama de servidão essa impotência humana para regular e refrear os afetos. Nesse estado de apaixonamento, quem já não se viu tomando atitudes inusitadas ou mesmo nada saudáveis? São esses questionamentos que acompanham a história entre Mocinho e Gatão, que se conhecem e querem estar juntos, mas não pelos mesmos motivos. O ator Márcio Machado interpreta Gatão, um homem de quarenta e poucos anos com medo do passado, enquanto Gunnar Borges interpreta Mocinho, um homem com trinta e poucos anos com medo do futuro. Entre eles, porém, há um terceiro personagem interpretado por Andrêas Gato: a Nave, um automóvel com espaço interior para apenas duas pessoas e que, muitas vezes, parece enxergar aquilo que os outros dois não percebem.

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