‘Ponto Zero’: entre tropeços, a imagem se impõe

‘Ponto Zero’: entre tropeços, a imagem se impõe

Rodrigo Fonseca

02 de junho de 2016 | 12h11

Sandro Alipandrini e Eucir de Souza em

Sandro Aliprandini e Eucir de Souza em “Ponto Zero”: já nas telas

Talvez por um indisfarçável bairrismo, a produção gaúcha Ponto Zero, recém-chegada ao circuito, tenha saído do último Festival de Gramado coroada pela salva de aplausos mais inflamada de todo o evento. E foi, entre todos os concorrentes de 2015, uma surpresa pela sua habilidade em diluir o que há de ferrugem no lado mais trágico da adolescência. Mas o ufanismo gaudério pode ser desconsiderado frente à força visual deste filme que, embora desigual e irregular, alcança transcendência pelas vias da imagem, revelando ainda um talento juvenil na figura do ator Sandro Aliprandini. Sua requintada fotografia e sua estrutura de silêncios sufocantes ficam intactas nas retinas mesmo quando a narrativa se afoga, lá pelo meio, em sua fome de mesclar referências e em buscar uma voz crítica em relação a desajustes sociais. Na direção de José Pedro Goulart, este drama se impõe por eu olhar sobre uma juventude nova, a dos millennials, alienada em celulares, mas acossada pela solidão, como sempre. O requinte não abafa os traços de desgoverno no storytelling, que mesmo se perdendo, consegue comover e fazer pensar. O que se vê na telona é uma espécie de episódio do Snoopy, com um Charlie Brown gauchesco numa vida de cachorro. E a comparação não é um desdém: a HQ de Charles M. Schulz é filosofia pura, embalada para menores e maiores. Goulart tentou algo nessa linha e teve acertos.

Na trama, um adolescente de 14 anos, Ênio (Aliprandini), tenta buscar uma saída para sua angústia e seu desejo ao ser oprimido diante dos conflitos amorosos entre seus pais, interpretados por Patricia Selonk e Eucir de Souza. Este tem um desempenho vigoroso, que nos contagia de ódio pelo machismo de seu personagem: um radialista grosseirão e adúltero. Mesmo com boas atuações, o longa se desvia de sua rota inicial e acaba desperdiçando uma fauna de tipos cheios de inquietações. Apesar disso, o trabalho de seu fotógrafo, Rodrigo Graciosa, garante à plateia planos de vigor plástico singular.

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