Polêmica racial com Oscar aumenta a visibilidade de novos filmes sobre a condição do negro nos EUA

Polêmica racial com Oscar aumenta a visibilidade de novos filmes sobre a condição do negro nos EUA

Rodrigo Fonseca

21 de junho de 2016 | 16h40

"Fences"

“Fences”, Denzel dirige Viola Davis

Basta uma olhada em sites especializados nas agitações do mercado hollywoodiano, como o Awards Daily ou o da revista Variety, para se chegar à conclusão de que a polêmica racial estabelecida no início deste ano, nos EUA, acerca da ausência de atores negros do Oscar aqueceu de maneira surpreendente o destino de produções ligadas à representação de afro-americanos nas telas, a começar por Fences. A notícia de que o todo-poderoso Denzel Washington havia optado por levar para o cinema a peça teatral homônima de August Wilson, pela qual ele conquistou o Tony em 2010, gerou em Hollywood a certeza de que um ímã de lágrimas, de prêmios e de milhões de dólares estava em gestação, com fôlego para aliviar os ânimos agitados durante a festa de sua Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em fevereiro. Denzel dirige e estrela a saga de uma família que cresce sob o pulso firme de um pai violento, tendo na mãe (Viola Davis) uma referência de harmonia.

Mais quente do que todos os demais projetos com cara de Oscar, The Bith of a Nation saiu aclamado de Sundance e vem fazendo do ator e diretor Nate Parker “a” promessa do momento quando se pensa em renovação de Hollywood. Ele vive um pastor negro que, no auge da escravidão, é convencido por seu dono (Armie Hammer) a usar as palavras do Senhor para domar seus ex-colegas de senzala. Mas sua pregação terá um efeito diferente.

"Mr. Church"

“Mr. Church”

Até Eddie Murphy, cuja carreira anda no lodo desde que perdeu (injustamente) o Oscar por Dreamgirls (2006), ensaia uma volta por cima. Em Mr. Church, o eterno Tira da Pesada une forças com o diretor Bruce Beresford (de Conduzindo Miss Daisy) para viver um cozinheiro que, ao longo de 15 anos, ajuda uma menina lourinha a crescer mais ética e mais amorosa. É daqueles novelões de arrancar litros de choro.

"Loving"

“Loving”

Outra aposta alta é Loving, drama magistral de Jeff Nichols, injustamente esnobado em Cannes, no qual Ruth Negga (a Tulipa do seriado Preacher) revive as angústias reais de um casal preso na Virgínia dos anos 1950 pelo fato de ele ser branco e ela, negra. Joel Edgerton encara o papel principal, num trabalho primoroso. Mas é Ruth quem faz nosso olhar marejar. E muito.

"A United Kingdom"

“A United Kingdom”

Laureada com o Oscar de melhor coadjuvante em 2014 por Doze Anos de Escravidão, a beldade Lupita Nyong’o pode brilhar de novo, sob a direção da indiana Mira Nair, à frente de Rainha de Katwe. Neste drama, ela é uma campeã de xadrez de Uganda às voltas com questões políticas. Ela contracena com o espetacular ator inglês David Oyelowo (de Selma), também no páreo de prêmios com A United Kingdom, dirigido pela também negra Amma Asante. É um filme no qual ele contracena com Rosamund Pike. O longa recria a confusão racista instaurada quando o príncipe de Botswana resolve se casar com uma mulher branca.

"Miles Ahead"

“Miles Ahead”

E não se pode – de forma alguma – subestimar o desempenho de Don Cheadle, na frente e atrás das câmeras, em Miles Ahead. Neste mergulho nos anos mais turbulentos e trincados de Miles Davis, o astro de Hotel Ruanda (2004) quebra todas as convenções das cinebiografias.

 

P.S.: Falando sobre a questão de afrodescendentes, o cinema brasileiro tem hoje em cartaz um filme precioso – e provocador – sobre o tema que é Mundo Deserto de Almas Negras, no qual Sidney Santiago (de Os Doze Trabalhos) tem uma atuação contagiante como um advogado de caráter rarefeito em um Brasil onde a elite é negra. A queda dele aos infernos da arrogância é desenhada (com estilo) pelo diretor Ruy Veridiano como um ensaio irônico sobre as falências utópicas deste país. É um filme obrigatório nas discussões de cor.

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