Poema lituano: ‘Paz Para Nós em Nossos Sonhos’

Poema lituano: ‘Paz Para Nós em Nossos Sonhos’

Rodrigo Fonseca

08 de junho de 2016 | 10h16

'Paz Para Nós Em Nossos Sonhos' foi um dos destaques da Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2015

‘Paz Para Nós Em Nossos Sonhos’ foi um dos destaques da Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2015: poesia e solidão

Dono de uma estética contemplativa sobre esforços (nem sempre exitosos) de contato entre almas carentes, na qual trabalha os atores numa direção quase ritualística, capaz de agregar traços pessoais dos intérpretes à encenação, o cineasta liturano Sharunas Bartas (de A Casa) enfim ganha, no Brasil, um espaço em circuito à altura de sua força autoral com a estreia, nesta quinta-feira de Paz Para Nós Em Nossos Sonhos. É difícil pensar em uma representação da violência mais aterradoramente poética do que a sequência deste filme na qual uma aranha trucida uma borboleta em sua teia, aos olhos de uma jovem eslava que chora suas mazelas de inadequação a um mundo florestal, sem qualquer calor humano. Durante várias outras cenas, a borboleta voa pelo quadro como se demarcasse a beleza do ambiente, potencializando sua placidez, até que a aparição de sua algoz aracnídea deixasse evidente que existem predadores mesmo na mais pacífica das instâncias. Mas isso não é um senso moral: em Sharunas (ou Sarunas, como assina às vezes) não há lugar para sensos definitivos; só observação, percepção, sinestesias.

Pai e filha: abismos sensíveis

Pai e filha: abismos sensíveis

De um silêncio amordaçante, mas jamais excludente, Paz Para Nós Em Nossos Sonhos é um poema sobre inadequações, onde os espaços vazios entre as estrofes têm tanto valor quanto as poucas palavras jogadas. As melhores delas são arremessadas a esmo por uma velha aldeã acerca do que significa politicamente ser nascido na Lituânia. Seu discurso não comporta ufanismos. Nem nome essa mulher tem na trama, portanto é ainda mais simbólico que seja ela a pessoa a discursar sobre identidade nacional numa trama cheia de pessoas buscando sua própria identidade afetiva. E o termo “trama” aqui deve vir entre aspas por diferir do uso convencional que se faz dele uma vez que não há muito de enredo a ser desenvolvido, numa lógica trivial de causa e efeito. O que importa aqui é o estado emocional de quem aparece na tela, quebrando, com a demasia da humanidade, a calmaria de um bosque.

 

Para lá vão um pai viúvo (o próprio Sharunas), sua filha (Ina-Marija Bartaite) e sua atual (e jovem) mulher, uma violinista desarticulada com a música (Lora Kmieliauskaite, esplendorosa na forma de atuar e na beleza). O homem e a adolescente não conseguem diálogo, pois a Morte deixou uma sombra entre eles. Já a musicista sofre com o ar reticente e seco do marido, mais velho do que ela e sem sensibilidade com a arte. Ao redor deles, um guri com os hormônios à flor da pele rouba um rifle para si, o que ameaça resultar em algo trágico.

Mas com Sharunas, um diretor de 11 filmes mundialmente premiado por Indigène d’Eurasie (2010), o sentido do vocábulo “trágico” não carece de viradas de roteiro, nem surpresas. Trágica é a condição humana. Como Andrei Tarkóvski (Solaris), de quem é herdeiro, ele compreende o simples esforço de observar o espetáculo da vida, com o silêncio necessário para a digestão das contradições em cada gesto, já rende, em si, uma tragédia. O que, no caso de Paz Para Nós Em Nossos Sonhos, vem corado de uma dor contagiante.

Cotação: Excelente

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: