Poeirinha do trágico: ‘Meninas e Meninos’, uma peça obrigatória

Poeirinha do trágico: ‘Meninas e Meninos’, uma peça obrigatória

Rodrigo Fonseca

03 de julho de 2019 | 15h23

Rodrigo Fonseca
Nutricionistas eletrônicos da web estimam que um abacaxi tenha de 25 kcal a 50 kcal, seja em fatia ou porção. É uma aritmética difícil de assumir como número absoluto. Porém, existe mais precisão na fonte calórica de amargura que serve de miolo ao ananás de plástico sorvido por Maria Eduarda de Carvalho nos múltiplos vértices do palco do Teatro Poeirinha, ao exorcizar os diabos da peça “Meninas e Meninos”, hoje em cartaz no Rio. Quando menos se espera, um copo modelo pineapple surge em cena, com seu amarelo berrante, aliviando um purgatório vestido de palavras, que salta da boca de uma atriz em estado de graça. É um amarelão que disputa o olhar com seis círculos acarpetados pelo chão e uma pilha de brinquedos. Temos um gato de pelúcia, patos de borracha, cabritos com feições de Disney, um avião de papelão e mimos afins. É um depósito afetivo, o relevo de uma história de amor que gravita para o bestial, num monólogo em forma de gangorra. Como pêndulo, o corpo da estrela nietzschiana que Maria Eduarda é vai do carvão ao diamante, desfilando entre a memória de um apaixonamento iniciado em uma fila de aeroporto e uma brincância de infância a três, entre a protagonista (uma produtora-executiva de documentários) sua filha, Lia, e seu filho, Dani. O marido, que cata roupas nos cafundós da Itália e revende com a ajuda de estandes tamanho GG e cerca de 15 empregados, é uma espécie de vetor. Um vetor ora de empuxe, ora de âncora, numa geometria nada euclidiana na qual a tragédia é força de aceleração. O texto vem do inglês Dennis Kelly (em tradução de Diego Teza). Nele se desenha o precipício de uma relação a dois (com apêndices filiais) que se depaupera pelo fracasso emotivo e pela fratura de psiquê de um dos extremos da reta. O que era para ser um recorte do Infinito vira uma curva com jeito de calombo ou de quebra-molas. Ali, o idílico “felizes para sempre… ou até quando durar” dá lugar a frases que causam tétano, algumas pontiagudas como “Tinha um lugar onde a gente não caía”. Numa interpretação de vísceras, sorrisos, remelexos e citações a um cachorro Transformer chamado Optimus Prime, o reator nuclear que pulsa dentro de Maria Eduarda produz uma radiação foucaultiana ao analisar a microfísica do poder num inferno de possessividade que é a inveja conjugal. Foucault dizia: “De homem a homem verdadeiro, o caminho passa pelo homem louco”. É esse o percurso que atravessamos ao longo desse obrigatório estudo sobre controle, estruturado sob a linha do Equador que separa “planejamento” de “surto”, sob a direção de Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas. É uma direção com domínio cirúrgico das idas e vindas do Passado… o Passado como um arquipélago de solidões conectadas por um istmo chamado Dor, ora apelidado de Arrependimento. Na iluminação, Vilmar Olos traceja uma luz que ressalta a potência dionisíaca de sua personagem em confissão de si mesmo. Priscila Jacintho opera essa luz pontuado risos que viram holofotes, como rasgos na tapeçaria da recordação, aquela danada que imortaliza momentos nas quais galinhas de argila parecem brontossauros. Essa é uma das referências de uma alegria que acaba mumificada sob as faixas de uma perda cruel. O espetáculo fica em cartaz até 25 de julho no Poeirinha, sempre às terças, quartas e quintas, às 21h. Perde não.

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