Poeirinha de resistência: ‘Meninas e Meninos’ em cena

Poeirinha de resistência: ‘Meninas e Meninos’ em cena

Rodrigo Fonseca

22 de julho de 2019 | 14h36

Rodrigo Fonseca
Um dos acontecimentos teatrais de 2019, construído no arame farpado da brutalidade, a peça “Meninas e Meninos” tem uns dias a mais de vida nos palcos cariocas, onde vem produzindo, noite a noite, debates e transcendências, com seu estudo sobre o controle na vida a dois. Em uma atuação em estado de graça, Maria Eduarda de Carvalho desenha o eclipse de uma relação, vitaminada por dois filhos, no palco do Poeirinha, a partir de um texto do inglês Dennis Kelly (em tradução de Diego Teza). O espetáculo fica em cartaz até 25 de julho no Poeirinha, sempre às terças, quartas e quintas, às 21h. Numa investigação sobre a atomização de um sonho lindo que se foi, Maria Eduarda se lança no precipício da descoberta sob a direção de Kiko Mascarenhas e Daniel Chagas. É uma direção com controle cirúrgico das idas e vindas do Passado, tracejado como um arquipélago de solidões conectadas por um istmo chamado Dor e apelidado de Arrependimento. Vilmar Olos desenha a luz, operada por Priscila Jacintho de modo a pontuar risos que viram holofotes, como rasgos na tapeçaria da recordação.
Na entrevista a seguir, a o reator nuclear de lirismos batizado de Maria Eduarda fala de sua personagem na peça: uma produtora de documentários, mãe de um par de crianças, que se vê às voltas com a escassez do amor (e de lucidez) em seu casamento. O pretérito, nas palavras de Kelly, é de um imperfeito desacerto. Eis o desajuste, a verdade e a vida.

Como foram as pesquisas, factuais e cênicas, para a construção da personagem, a partir do texto de Dennis Kelly?

Maria Eduarda de Carvalho: Li alguns relatos de pessoas que experienciaram o mesmo evento trágico, vivido pela personagem da peça e, na sequência, fui tragada pelo doloroso processo de ensaios. Foram dois intermináveis meses, visitando os lugares mais sombrios de mim mesma. O curioso foi que, quando Kiko me apresentou ao texto, no fim do ano passado, além de ser arrebatada pela história e acreditar que ela serve ao momento do país, como poucas, tive certeza de que seria capaz de “ser” aquela mulher com certa desenvoltura. Sentia que algo na fala dela nos aproximava muito. Não dimensionei a profundidade do buraco que estava por vir.

Que sopro no coração o texto te provocou?
Maria Eduarda de Carvalho: Não tenho um hidrômetro, mas acredito ter derramado o equivalente ao oceano Atlântico e o Pacífico pelos olhos, ao longo dos dois meses de ensaios. Havia dias de ensaio que eu não conseguia falar o texto… simplesmente chorava. A história dessa mulher me fez visitar um universo interior de desamparo e solidão muito profundos. Doía tanto que cheguei a duvidar do sentido daquilo. Ponderava entre caretas e soluços se aquele sofrimento todo de fato valeria a pena. Hoje, iniciando a última semana de apresentações e constatando no rosto de cada espectador a força arrebatadora desta história, tenho a minha resposta.  Mas é muito importante dizer que Daniel e Kiko foram fundamentais nesta odisseia de ressignificação do sofrimento. Seus olhares de sustentação me tornaram capaz de atravessar a dor para conseguir contar esta história e sobreviver a todas as noites de apresentação.

Como expurgar os ventos ruins na fotossíntese de cada apresentação?
Maria Eduarda de Carvalho:
 Álcool no crânio! Hahahaha! Vinho no pós peça é um ritual indispensável para a fotossíntese diaria.

O que essa incursão ao purgatório te revela sobre o ofício de atriz?
Maria Eduarda de Carvalho: Fazer “Meninas e Meninos” está sendo uma espécie de reafirmação da minha escolha de vida.  Ser artista em um país que nega a função transformadora da arte na formação de um indivíduo… um país que tem unido esforços para nos destruir por completo… é um tipo de sacerdócio. As dificuldades são infinitas e os motivos para desistir são recorrentes. É necessária uma fé cega para seguir e persistir. Acredito que, para além de um profissional, o artista é um canal de sensibilização que leva ao público a possibilidade de desacostumar o olhar cotidiano e rever, com assombro, encantamento e poesia, a realidade nossa de cada dia. A experiência de encenar este texto três vezes por semana tem sido intensa, doída e também apavorante. Não é fácil estar só em cena contando essa história, MAS É FUNDAMENTAL. A potência da fala desta personagem e a importância social deste espetáculo para o Brasil de hoje, me garantem a certeza de que é preciso resistir e seguir.  Contando esta história, reafirmo minha missão.

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