‘Podres de ricos’ na HBO

‘Podres de ricos’ na HBO

Rodrigo Fonseca

13 de novembro de 2019 | 09h45


Rodrigo Fonseca

Depois de décadas de racismo em sua representação das populações da China, do Japão, das Coreias, Hollywood enfim entendeu que precisa mudar sua representação dos povos asiáticos, em especial pela demanda dos imigrantes do Oriente que vivem em seu território, afoitos por filmes que retratem seu cotidiano. Não por acaso, a Marvel prepara agora uma aventura do Mestre do Kung Fu, herói mítico das HQs de asianexploitation dos anos 1970. Há, ainda, o fenômeno sino-americano “The Farewell”, dramédia de Lulu Wang, que pode dar um Oscar à atriz Awkwafina. Mas a virada nesse flerte do cinemão com a Ásia se deu aqui, com “Podres de ricos”, que entrou na grade da HBO e pode já ser visto no (belo) streaming da emissora. Seu enredo seria algo como “Gata Borralheira em tons de molho agridoce”.

Um dos filmes mais rentáveis de 2018, cujo faturamento foi de US$ 238,5 milhões, “Crazy rich asians” (aqui traduzido como “Podres de ricos”) é uma adaptação do best-seller homônimo de Kevin Kwan, que consumiu US$ 30 milhões em suas filmagens e seu lançamento. Nada mais é do que uma versão contemporânea de “Cinderela” com atores asiáticos, sem sapatinho de cristal, puxado na pimenta em sua mirada para as relações sociais e amorosas. Seu humor é bem dosado, equilibrado com o tom melodramático de sua abordagem para impasses do querer. Seu diretor, o californiano de ascendência chinesa Jon Murray Chu (de “GI Joe: Retaliação”), é um especialista em videoclipes (sobretudo os de Justin Bieber), competente em misturar gêneros. Seu erro é plástico: na fotografia e na direção de arte, seu filme aposta em demasia na saturação de cores, no excesso de elementos cenográficos e na utilização de luzes, de modo a diluir o realismo e caminhar para o conto de fadas. Se não fosse tão desmedida com seu apuro visual, a proposta até casaria com a trama: uma jovem professora de Nova York, Rachel Chu (Constante Wu, uma atriz de carisma invejável) viaja para Singapura para conhecer a família de seu milionário noivo, Nick (Henry Golding, o galã da hora e da vez), e é hostilizada pela sogra (a genial estrela malaia Michelle Yeoh, de “O tigre e o dragão”). Temos aqui um enredo batido, tratado sem novas perspectivas estéticas, repaginado apenas sob o viés antropológico. E a abundância de anilina no glacê tira o sabor deste bolo, cujo recheio mais saboroso é o binômio de maldade e ironia que Michelle descortina a cada cena.

p.s.: Nesta quarta, a “Sessão da Tarde” vai exibir a delícia “Click”, o maior sucesso de Adam Sandler no Brasil, às 15h.

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