‘Pinóquio’ no Oscar 2021

‘Pinóquio’ no Oscar 2021

Rodrigo Fonseca

15 de março de 2021 | 10h37

RODRIGO FONSECA
Teve muita boa notícia nas indicações ao Oscar 2021, a ser entregue no dia 25 de abril, como a onipresença do ótimo “Judas e o Messias Negro” e a inclusão merecida do dinamarquês Thomas Vinterberg entre os concorrentes ao Oscar de direção, por “Druk – Mais uma Rodada” (“Another Round”). Mas o maior sorriso que o P de Pop deu, ao ouvir a lista de concorrentes, foi para a dupla menção a “Pinóquio”, de Matteo Garrone, que disputa os prêmios de melhor figurino (de Massimo Cantini Parrini) e melhor maquiagem (de Dalia Collie e Mark Coulier). É um dos mais tocantes filmes em cartas hoje no Brasil, com sua delicada releitura do boneco de pau criado por Carlo Collodi (1826-1890). Em 2019, o romano Matteo Garrone, de “Gomorra” (Grande Prêmio do Júri em Cannes, em 2008) adaptou as aventuras do mentiroso boneco aspirante a ser gente para as telas, misturando atores, efeitos visuais e uma sofisticada maquiagem. O projeto, “Pinocchio”, orçado em € 11 milhões, estreou às vésperas do Natal na Itália, e vendeu milhões de ingressos, configurando-se como sucesso comercial tipo exportação. Ovacionado em sua passagem pela Berlinale 2020, pela exuberância de sua direção de arte, o filme de Garrone conquistou uma bojuda bilheteria em seu currículo europeu – cerca de US$ 22,5 milhões, dos quais US$ 17 milhões foram arrecadados em seu país de berço – e uma farta fortuna crítica, apoiada na excelência da direção e no desempenho de Roberto Benigni. O oscarizado astro e diretor de “A Vida É Bela” (1998) vive Geppetto nesta divertidíssima produção, que explora a faceta mais violenta da prosa infantil de Collodi, sem medo do politicamente correto. “Roberto vem de uma origem pobre e sabe a dor do mundo que nós estamos retratando”, disse Garrone ao P de Pop, por telefone.

Embora tenha escolhido como seu representante ao Oscar de Melhor Filme Internacional de 2021 o documentário “Notturno”, de Gianfranco Rosi, a Itália fez sua grande festa cinéfila no ano que passou com o “Pinocchio” de Garrone, um artista plástica que virou cineasta nos anos 1990. “Eu cresci com Pinóquio quando era criança e resolvi permanecer no terreno dos contos de fábula mais um pouco depois que fiz ‘Conto dos Contos’ em 2015, onde testei novos caminhos de reconstituição histórica baseados na fantasia e na força da direção de arte. E a história de Collodi fala de modo universal sobre a aventura de crescer, de ser feliz e de lutar contra as tentações. É um texto que fala muito da Itália a partir da alegoria dos animais”, disse Garrone ao Estadão.
Visto na última década com destaque em “Para Roma, com amor” (2012), de Woody Allen, Benigni é quem abre o “Pinóquio” de Garrone vivendo um sofrido Geppetto na narrativa estruturada pelo produtor inglês Jeremy Thomas (de “O Último Imperador”). Federico Ielapi é quem vive Pinóquio, um brinquedo de maneiro que ganha vida e passa a frequentar a escola, tendo numa entidade em forma de inseto chamada Grilo Falante (na voz de Davide Marotta) sua consciência. Mas no afã de virar gente, ele esbarra com animais escroques, envolvendo-se em mil confusões, ameaçado de virar um asno. Uma fada (Marina Vacth) será sua salvação – ou quase – em sua andança pelo mundo. “A universalidade aqui vem da reflexão que essa criança de madeira abre sobre as tentações que nos cercam”, disse o cineasta. “Precisamos saber julgar bem o que a vida nos oferece”.

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