‘Pinocchio’ pra americano ver

‘Pinocchio’ pra americano ver

Rodrigo Fonseca

03 de dezembro de 2020 | 15h05

Geppetto (Roberto Benigni) e seu boneco de madeira com alma de gente

Rodrigo Fonseca
Embora tenha escolhido como seu representante ao Oscar o equivocado “Notturno”, de Gianfranco Rosi, a Itália fez sua grande festa cinéfila em 2020 com outro filme, um filme voltado para o universo infantil, mas com requinte narrativo da mais absoluta maturidade: “Pinocchio”, de Matteo Garrone, previsto para estrear nos EUA no dia de Natal. No Brasil, já há cartazes nas salas exibidoras anunciando a produção que entra em circuito nos Estados Unidos com uma bojuda bilheteria em seu currículo europeu – US$ 20,4 milhões, dos quais US$ 17 milhões foram arrecadados em seu país de berço – e com uma farta fortuna crítica. Parte dele veio da Berlinale, em fevereiro. Ovacionado em sua passagem pelo 70º Festival de Berlim, onde arrancou lágrimas no papel do carpinteiro Geppetto, Roberto Benigni renovou seus votos de popularidade com o público cinéfilo 21 anos depois de ter conquistado as estatuetas de melhor ator e de melhor filme estrangeiro, na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, com “A Vida É Bela”. Estima-se que sua passagem por telas americanas vá ampliar polpudamente sua receita e ressignificar a figura de Pinóquio aos olhos das gerações mais jovens.
“Flertar com a fantasia é sempre uma forma de a gente se reoxinegar”, disse Garrone ao P de Pop, por telefone, quando preparava o roteiro de “Pinocchio” com Massimo Ceccherini. “Se você pensar que um diretor como Pasolini começou a carreira nos longas fazendo filmes realistas como ‘Desajuste Social’ e passou para mitologias ao adaptar a Bíblia em ‘Evangelho Segundo São Mateus’ e ao filmar ‘As 1001 Noites’, vai perceber que este trânsito entre registros narrativos não é uma exclusividade minha. Isso aconteceu também com Mario Bava, outro mestre, aliás, um mestre nem sempre muito reconhecido, que transitava pela fantasia em seus thrillers. Francesco Rosi fez o mesmo. E Fellini era um dos maiores fãs de Giambattista Basile, a quem adaptei em ‘O Conto dos Contos’. Fazer fábula é sempre uma fricção com o inesperado. Cada viagem, seja por uma época, seja por um tema, é um teste no qual eu tento aprender ferramentas de outros gêneros”.

Visto na última década com destaque em “Para Roma, com amor” (2012), de Woody Allen, Benigni é quem abre o “Pinóquio” de Garrone (realizador dos premiados “Gomorra”, “Reality” e “Dogman”) vivendo um sofrido Geppetto a partir da literatura de Carlo Collodi (1826-1890). Exibido na Berlinale fora de competição, o longa estreou em telas italianas em 19 de dezembro, de olho nas plateias natalinas, e vem lotando salas de exibição. Seu orçamento está estimado em € 14,7 milhões, um valor alto para os padrões do cinema comercial de seu país, viabilizado pela presença do produtor inglês Jeremy Thomas (de “O Último Imperador”). “Este é um filme para multidões, para dialogar com faixas etárias variadas, apostando no fato de eu ser o único ator do mundo que interpretou Pinóquio e Geppetto na mesma vida, ainda que com resultado diferente”, brincou Benigni, hoje com 68 anos, referindo-se ao desastre de bilheteria baseado na história do boneco de nariz grande que dirigiu e estrelou em 2002, quase indo à falência por rejeição do público na Itália e fora dela. “Garrone me traz agora uma mistura de história em quadrinho, de livro infantil e da tradição da pintura ocidental. É uma mistura sólida para discutirmos as reinvenções que a pobreza nos exige”.

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