‘Piedade’, a febre do melodrama

‘Piedade’, a febre do melodrama

Rodrigo Fonseca

20 de junho de 2020 | 13h18

Aurélio (Matheus Nachtergaele) é o Tubarão de Cláudio Assis num ecossistema de exclusões e explorações

Rodrigo Fonseca
Foi a maresia do cinemão quem transformou os tubarões na mais odiada espécie do reino animal, na onda dos US$ 471 milhões arrecadados por “Jaws” (1975). Steven Spielberg encarnou a Maldade em guelras e mandíbulas, duas metonímias do verbo “sobreviver” que ganham um novo significado em “Piedade”, o momento Fassbinder do pernambucano Cláudio Assis. Exibido na sexta, 19/6, online, no projeto Espaço Itaú Play, de levar longas-metragens ao público via web, o mais recente filme do diretor de “Amarelo Manga” (2002) faz um exercício de desconstrução semiótica ao deslocar o ódio que o audiovisual construiu, ao longo dos últimos 45 anos, de criaturas marinhas apenas interessadas em saciar sua fome. Fome é uma palavra essencial ao código cinematográfico estabelecido por Assis nos últimos 18 anos: seus personagens são famintos de comida, de prazer, mas sobretudo de dignidade. Como tubarões, com “t”. Mas há na filmografia dele – elevada às alturas da excelência com “Baixio das Bestas”, ganhador do Tiger Award de Roterdã, em 2007 – um canteiro para Tubarões, com o “T” da truculência inerente à ganância e ao desajuste social. A fera aqui não é peixe, é o executivo de uma petrolífera, cujo predatismo bebe uísque com o servilismo bovino a uma matriarca sufocadora e a um ditame capitalista de enriquecimento. O tubarão é Aurélio, máquina de matar harmonias familiares que garante a Matheus Nachtergaele seu mais devastador papel (e sua mais luminosa atuação) nesta década. Mar mais revolto do oceano poético revelado da Retomada (1995-2010) pra cá, Assis vem remando por águas mais mansas desde “A Febre do Rato” (2011), num empenho de catar as flores que nascem no mangue da brasilidade – além dos caranguejos de sempre. A diferença, aqui, está na corrente que embala sua cabotagem. Até “Big Jato” (2015), a mistura agridoce do azougue sobre o qual sua balsa flutuava casava riso, sexo, sociologia, antropologia e uma exótica percepção de lealdade. Agora, um novo afluente irriga seu sistema de poesia imagética: o melodrama. E o dique do folhetim só consegue se abrir em sua hidrografia de fúrias porque existem presas sujas de sangue a ferver o magma da exclusão em suas profundezas. As presas de Aurélio.
É pelo litoral de Piedade que ele ataca: o título do filme é o nome de uma utopia praiana. O roteiro dessa utopia é escrito por Anna Francisco, Dillner Gomes e Hilton Lacerda e dele saem pérolas como “E sexo fede desde quando? Sexo é cheiroso”. Nele, a tal praia com nome de sentimento é alvo do apetite da corporação para a qual Aurélio pede a bênção – e da qual disfarça sua homoafetividade. Sua mãe também parece não poder saber de sua orientação sexual, como comprova um dos crocantes diálogos entre filho e big mama, vivida por Denise Weinberg. Mas apesar das máscaras de bom peixinho que veste, Aurélio não bloqueia o roncar de seu estômago diante de uma presa com perfil de iguaria: o exibidor Sandro, papel que faz Cauã Reymond passar, de uma vez por todas, aos altares do risco e da exuberância cênica. Se existe, em “Piedade” – o filme, o hemisfério da prospecção do petróleo do peleguismo, representado por Aurélio, existe, no lado oposto, o hemisfério das entranhas feridas pelo liberalismo do amor. E nele mora Sandro e seus familiares. E nessa morada reside também a autoralidade mais fina de Assis, como o grande realizador que é: sua obra, como uma vez definiu Nachtergaele, é sobre “como a gente trepa errado e sobre como a gente ama errado”. E trepadas raras vezes ganharam luz mais linda do que as empregadas pela fotografia de Marcelo Durst para desenhar o tônus lírico da querência dos corpos de Assis.

Em geral, em seus filmes, relações sexuais são associadas ora à brutalidade, ora ao revanchismo (como o fio terra com uma escova de cabelo em “Amarelo Manga”), ora à escatologia (como a urina numa banheira onde um poeta come mulheres idosas em “Febre do Rato”) ou ora uma expressão gráfica do sadismo. Em “Piedade”, o sexo ferve a banho-maria: é intenso, mas tem a beleza da cumplicidade. O sexo une Aurélio e Sandro numa beleza coroada pela hipocrisia de um e a coragem de outro. Aurélio pode seguir sendo tubarão porque esconde seu querer de todos os que mantêm sua posição no panteão do Poder, numa lógica submissa de homofobia e podridão moral. Sandro, por sua vez, pode seguir tritão – mito aquático – porque assume quem é, tendo sido expulso de seu lar adotivo por isso. Mas não guarda mágoas. Mito é mito. Não é pra quem quer, é pra quem pode. E ele pode, pois deseja e obedece suas vontades.
Existe, aí, no quadrante de prazeres e de cicatrizes de Sandro, uma parentela entre “Piedade” e o já citado Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), cineasta alemão, pilar essencial ao castelo do melodrama. Mas a parentela se dá não com o Fassbinder das obras consagradas e pop (“Lili Marlene”, “O Casamento de Maria Braun”), mas sim o Fassbinder da bile, o de “Roleta Chinesa” (“Chinesisches Roulette”, 1976) e o de “O Machão” (“Katzelmacher”, 1969). É o melodrama do azedume, com cheiro de repolho e rosas mortas… ou o cheiro do adstringente que Sandro encomenda para diluir o aroma de ejaculação em seu cinema pornô. Aquela casa de tolerância avinagrada a fotogramas lembra o cineminha erótico do filipino Brillante Mendoza em “Serbis” (2008), mas com um sotaque de Brasil. Um Brasil de erosões e de abandono: nele, a veia melodramática do filme de Assis vem à tona quando Sandro (numa apoteótica gestualização de Cauã) descobre ter uma mãe biológica ainda localizável.

Cauã Reymond é Sandro, dono de um cinema pornô

Filho de uma experiência do exibidor com mulheres, o jovem Marlon Brando (Gabriel Leone, no timbre preciso de inquietude), vai ajudar o pai a ir atrás desse passado, que se esconde no olhar Paul Klee de dona Carminha, personagem de Fernanda Montenegro. Ela é a Hanna Schygulla de Assis, com seus olhos trágicos que marejam ao perceber um ataque de tub… digo, Tubarões, o tubarão Aurélio, a seu recanto de céu.
Carminha lembra Klee pela alusão ao quadro “Angelus Novus”, o Anjo da História, que se esvai ao perceber que a Humanidade já imolou seus cordeiros por pecados veniais, sem cuidar dos mortais, sobretudo o da ganância. Igualmente angelical é o escudeiro da velha senhora: seu filho on the rocks Omar, monumento ao companheirismo que Irandhir Santos esculpe com o cinzel da elegância. Ele é só ganancioso na busca por um irmão que se perdeu. E na amarelinha fassbinderiana jogada por Assis, este pode ser Sandro, o São Francisco do tesão. Onde há um Irmão Sol, há uma Irmã Lua: a novela da (re)conexão familiar. E é nela, em suas águas de rio, que o mar de Assis deságua, bebendo do mais puro licor folhetinesco, num filme que nos embala. E contagia.

Neste sábado e no domingo, a mostra do Espaço Itaú Play segue com o genial “Alice Guy-Blaché: a História não contada da primeira cineasta do mundo”, com “Aos Olhos de Ernesto” e com “O Conto das Três Irmãs”.

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