‘Piccolo Corpo’ leva a força da fábula a Cannes

‘Piccolo Corpo’ leva a força da fábula a Cannes

Rodrigo Fonseca

10 de julho de 2021 | 09h15

Uma jovem busca tirar seu bebê da Danação Eterna em “Piccolo Corpo”

Rodrigo Fonseca
Sábado é dia de a Semana da Crítica de Cannes conferir uma joia que faz jus à tradição de glória do cinema italiano: “Piccolo Corpo”, de Laura Samani. É difícil não pensar em Roberto Rossellini… e, sobretudo, no Ermanno Olmi de “A Árvore dos Tamancos” (Palma de Ouro de 1978) diante dos planos idealizados por Laura, investindo no realismo para (paradoxalmente) dar sustância a uma fábula.
“Hoje não existe um status quo de filmagem organizado entre os diretores, com cada um a seguir seu próprio caminho, livremente. Mas existe, sim, o peso da égide neorrealista sobre nós, uma cobrança”, disse Laura ao P de Pop, lembrando do diretor de “Accatone – Desajuste Social” (1961) entre suas referências. “Pasolini é muito importante para que a reconstituição do passado que faço não fique presa no tempo histórico, criando uma analogia com o que nós vivemos hoje. Tem algo dos irmãos Grimm, só que à luz natural”.

Seu filme viaja no Tempo, até a Itália de 1900. Lá, o bebê da jovem Agata é nascido morto e condenado ao Limbo, sem receber as unções cristãs. Agata ouve falar de um lugar nas montanhas onde crianças natimortas podem ser trazidas de volta à vida com apenas um sopro, para batizá-los e salvar sua alma. Ela empreende uma viagem com o pequeno corpo de sua filha escondido em uma caixa e encontra Linx, um menino solitário que se oferece para ajudá-la. Eles partem para uma aventura que permitirá a ambos se aproximarem de um milagre.
“O milagre que me interessa aqui não é a manifestação do Sagrado e, sim, a ideia de bem, que possa ser comum a homens e mulheres, ainda que eu tente quebrar com o ranço machista histórico de patriarcado da Itália”, disse Laura ao Estadão.
No roteiro escrito pela diretora, em parceria com Marco Borromei e Elisa Dondi, temos um painel dos conflitos sociais de uma Europa que viria a vivenciar duas grandes guerras. Fotografado por Mitja Ličen, o longa-metragem é uma delicada cartografia de afetos fraturados pela pobreza e pela fé, numa ode ao poder da maternidade. Entre os títulos mais elogiados de Cannes deste ano, destacam-se ainda “The Worst Person In The World”, do norueguês Joachim Trier, e o mexicano “La Civil”, de Teodora Mihai.

p.s.: Amparado num potente time de atrizes em estado de graça, com destaque para Florence Pugh, “Viúva Negra” conta com a majestosidade de David Harbour a iluminar um thriller de super-heróis digno de quadrinistas mais provocativos, como Howard Chaykin e John Byrne. No comando desse supergibi, a cineasta Cate Shortland esbanja domínio sob as cartilhas de gênero em um ensaio sobre sororidade.

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