Philippe Garrel, um homem fiel ao filho, ao amor ao cinema

Philippe Garrel, um homem fiel ao filho, ao amor ao cinema

Rodrigo Fonseca

05 de julho de 2019 | 12h32

Rodrigo Fonseca
Tem um filme francês obrigatório em circuito, laureado com o prêmio de melhor roteiro no Festival de San Sebastián, em setembro de 2018, na Espanha, “Um homem fiel”, estrelado e dirigido por Louis Garrel, cujo pai, Philippe, um mito da França nas telas entre as revelações do fim dos anos 1960, tem um longa-metragem inédito em desenvolvimento, que Veneza anseia ter na disputa pelo Leão de Ouro deste ano. O título é “O sal das lágrimas” (ou “Le Sel des Larmes”) e seu elenco inclui Logann Antuofermo, Oulaya Amamra, Souheila Yacoub e André Wilms. Assim como o filme de Louis (no qual um jornalista traído pela namorada cura os males do querer nos braços de uma jovem), o projeto que o veterano Garrel tenta finalizar a tempo do festival veneziano (que vai de 28 de agosto a 7 de setembro, no Lido), envolve uma ciranda de paixões. Nele, um rapaz fortemente conectado ao próprio pai vive a educação sentimental em Paris, no carinho de uma jovem de quem acaba se distanciando. Mas, tempos depois, já com o futuro sentimental resolvido, ele volta a cruzar com esse amor de ontem. É típico de Philippe esse tipo de trama. O P de Pop falou com ele há poucos meses, quando o roteiro do longa novo saiu do papel, em meio a uma retrospectiva de sua obra no CCBB do Rio.

“Há séculos, o grande tema da literatura são as histórias de amor. Gosto daquelas de fundo histórico. Em “Amantes constantes”, um dos meus filmes, eu revivo um tempo que conheci bem, 1968, e, ao voltar a ele, à luz da memória sensível, percebo que o discurso da História mente: ele é interpretação, não vivência. Se eu abordo a História pela chave do amor, não importa a mentira: importa a permanência e a universalidade dos sentimentos. Aí, cinematograficamente, eu posso fazer a História avançar, indo pelo terreno dos sentidos, das vivências”, disse Philippe ao Estadão, antes de rir ao ouvir uma história quase anedótica da gente, quando nos esbarramos em Cannes, numa situação divertida.

 

Famélico, o diretor estava entretido com um pratão de alface, palmito e lascas de parmesão, numa bodega na Croisete, à beira-mar. Ali, Pai Garrel percebeu o olhar fascinado de um grupo de gatos pingados que, no fim de noite de Cannes, em 2017, era tomada de assalto pela presença inusitada daquele mestre da direção em um restaurante furreca do balneário francês. Estavam ali uns quatro cinéfilos notívagos, e este representante do P de Pop, que ainda digeria a força plástica do filme mais recente de Garrel: “Amante por um dia”. Dois cineastas americanos, os irmãos Josh e Benny Safdie (de “Bom comportamento”) souberam que ele estava dando sopa por ali e passaram para tietar o realizador de cults como “Amantes constantes” (prêmio de Melhor Diretor e de Melhor Fotografia no Festival de Veneza de 2005). No que os Safdie saíram, o Estadão se arriscou a prestar reverência, pescar um autógrafo num guardanapo e pedir os contatos do cineasta que completou 71 anos no último dia 6 de abril.

Há tempos, ele anda filmando com seus filhos, o já citado Louis e a atriz Esther Garrel. Ela debutou sob as instruções dele em “Inocência selvagem” (Prêmio da Crítica em Veneza, em 2001). Já Louis fez com ele títulos aclamados como “O ciúme” (2013) e “Um verão escaldante” (2011). Na entrevista a seguir, Philippe explica a gênese de sua estética.

Cena do escaldante “O ciúme”, de 2013

Qual é a dimensão política de um cinema que nasce no fervor de 1968 e se mantém fiel à cartilha da liberdade autoral?
PHILIPPE GARREL: 
Você acredita que alguém, hoje, diante da conjuntura da indústria cultural, daria dinheiro para Glauber Rocha, se ele estivesse vivo, para fazer um filme como “Terra em transe”? Isso não aconteceria pois vivemos tempos apolíticos. E olha que Glauber foi um dos grandes. Existe política em Godard. No meu cinema existem histórias de amor: mas a partir delas eu observo e disseco relações de poder. Sou filho de um ator, Maurice Garrel, que lutou pela libertação da França nos tempos sombrios da guerra e me ensinou a sempre flagrar o fascismo, a rejeitá-lo. Sei que vocês estão passando momentos difíceis aí no Brasil, em seu processo eleitoral, com o avanço de forças fascistas. Mas minha formação, ainda adolescente, na Cinemateca Francesa, abriu o meu caminho para filmes que transcendem a Realidade.

A Nouvelle Vague, o movimento que modernizou o cinema francês, entra como em sua vida? O senhor se reconhece como parte dessa linhagem desenvolvida por Agnès Varda, François Truffaut, Eric Rohmer & cia, mesmo tendo iniciado seus longas quando essa turma já somava quase uma década de carreira?
PHILIPPE GARREL: 
Da minha geração, Jean Eustache (diretor de “A mãe a puta”, que cometeu suicídio em 1981) era quem mais se aproximava da Nouvelle Vague. Eu comecei depois, mas estou ligado aquele movimento pela minha relação com Godard, como discípulo dele.

Há uma brincadeira entre cinéfilos brasileiros em que se pergunta: “pra que serve um Godard?”. Eu lhe estendo a pergunta: o que representa a obra do diretor de “Acossado”?
PHILIPPE GARREL: 
A certeza de que o capitalismo nos oprime. Admiro sinceramente o que ele faz, pois, até hoje, ele ainda tem muito a dizer.

Como foi sua educação cinematográfica antes de Godard?
PHILIPPE GARREL: 
Quando garoto, a Cinemateca Francesa, sob os cuidados de Henri Langlois, um de seus fundadores, permitiu que eu conhecesse diretores como (Eric von) Stroheim, Abel Gance e o Luis Buñuel da fase surrealista, com “O cão andaluz”. Eu estava ali diante da criação poética da imagem em movimento como linguagem. E foi o cinema mudo que me encantou, por suas formas de trabalhar o preto & branco, pela maneira de fazer do silêncio uma forma de discurso sensível. Falo aqui de ficção, mas os documentários de Robert J. Flaherty feitos nos anos 1920 e 30 também tiveram muito impacto em mim, como o belo “Nanook do Norte” e “Os pescadores de Aran”. E ali eu cheguei à ideia do cinema de poesia.

O que o preto e branco representa para o senhor como ferramenta, como linguagem?
PHILIPPE GARREL: 
Frequentei a Cinemateca e o Louvre em paralelo, o que me fez entender o cinema como a arte pictórica que vem na sequência da pintura. O preto e branco me remete aos filmes que me formaram, aos tesouros da era muda, permitindo que eu os homenageie ao mesmo tempo em que liberto o espectador dos vícios do Real, para soltar seu imaginário.

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