Philippe Garrel transborda o irretrocedível

Philippe Garrel transborda o irretrocedível

Rodrigo Fonseca

22 de fevereiro de 2020 | 21h35

Aos 71 anos, o diretor francês Philippe Garrel dá à Berlinale um filme de suspiros

Rodrigo Fonseca
Pela lógica de André Gide (1869-1951), segundo quem “as coisas mais belas são ditadas pela loucura e escritas pela razão”, o sentimento expresso no filme “Le Sel des Larmes”, que leva a jovem Djemila (Oulaya Amamra) a um estágio de exasperação, no gim da distância, não requer nome, por ser transpirado numa metafísica avessa a deselegância, mas aberta a desatinos. São gradações diferentes do porvir, da barriga que esfria, da mão que sua: ou seja, os sintomas do objeto pontiagudo (que causa tétano) chamado querer. Uns chamam de “amor”, mas essa é palavra-celacanto – provoca maremotos desnecessários. E a última coisa que se pode usar para falar do contagioso novo longa-metragem de Philippe Garrel é “desnecessário”, pois há medida para tudo neste concorrente ao Urso de Ouro de 2020. Pelo que se viu oficialmente na Berlinale.70, até aqui, nada é mais potente, nada parece durar tanto na gente, nada nos enleva ao grau da cabeça nas nuvens… nada como essa história faz. “O Sal das Lágrimas”, como a fita chamar-se-á por cá, ou “The Salt of Tears”, como dizem os americanos, é um “cinema de antigamente” feito nos “tempos do agora”. É aquilo que Roland Barthes (1915-1980), na clara câmara sua semiologia, previu como sendo o “tempo do foi aí”. Trata-se de um tempo escrito a partir de uma gramática e de uma moral que não cabem mais nas dinâmicas de um presente avesso ao corpo, azedo com querências, carências e proteções. Garrel parece ser antídoto para a danosa ménage à trois entre o egocentrismo, a falta de poesia e a miopia com o balé do dia a dia. Super-herói literário do cineasta francês – diretor de joias como “Amantes Constantes” (2005) e “Já Não Ouço a Guitarra” (1991) -, o já citado Gide insistiria no caso de Djmela ao dizer: “há aquilo que se sabe e há aquilo que se ignora, e, entre uma coisa e outra, está aquilo que se supõe”. A suposição, no caso, é de uma paixão em ebulição.
Na sequência mais cálida desse poema sobre inconstâncias, a personagem vivida com retidão por Oulaya vai a um bar, num momento de apuro na espera por quem está longe. Vai pedir um cigarro a um velho atendente, para aliviar a ausência física de Luc, aspirante a carpinteiro encarnado por Logann Antuofermo com presas de dragão só vistas com Jean-Paul Belmondo. O ancião olha a moça nervosa e anula os dengos, dizendo: “Conheci pessoas que enlouqueceram esperando”. O alerta é indigesto e sem tato, mas traduz algo da ordem do cuidado, do carinho, do zelo que as figuras grisalhas do filme demonstram com todas e todos, independentemente do gênero. Mesma medida de amparo tem o mestre da carpintaria vivido por André Wilms: pai de Luc, este quer dar as mãos àquelas que sofreram nas mãos apressadas de seu filho. Geneviève (costurada por Louise Chevillotte numa dança dos véus da delicadeza) é uma delas. Entrega-se demais a quem quer de menos.

Mas Garrel não julga o moço, muito menos suas protagonistas, a quem constrói, numa troca com suas atrizes, com tridimensionalidade, evitando cair no poço do sexismo. No cinema desde 1964, quando dirigiu o curta “Os Jovens Desajustados”, esse fruto tardio da Nouvelle Vague sabe que pessoas são variáveis de um X não determinado. Pelo menos não determinável por uma matemática de conexos direitos ao acerto. Na P.A. e P.G. do gostar, a equação afetiva não dá expoentes ao que não comporta metáforas. E a metáfora deste longa de madureza vem de uma comparação feita entre móveis domésticos e relacionamentos. Ambos têm encaixes, que podem beirar a perfeição, mas nem por isso deixam de ter farpas. Mas a farpa do desejo entra e salta e mata… pelo menos a monotonia. E não há lugar para o monótono num diretor que rearranja toda a nossa compreensão dos verbos “beijar”, “abraçar”, “comungar” na desinência a dois.
Parte da letargia que se atribui ao discurso amoroso se derruba na estética garreliana pela fotografia em preto & branco (aqui clicada por Renato Berta), que nos tira do Real e nos joga num ontem travestido de hoje e calçado de amanhã. Não se usa celular para guardar números de telefone trocados em xavecos: escreve-se na mão, a tintas de caneta, na esferográfica do analógico. Goza-se baixinho para não acordar vizinhos e primos, num respeito digno de cavaleiro de armadura e de princesa de castelo. São modos à antiga. São costumes de antanho. Mas a vivência deles nos leva a uma experiência sabor framboesa de um jeito como o cinema do momento não filma mais, sem medo da oralidade, da palavra como soluço, da língua como pincel.

Amanhã passa pela competição de Berlim o potencial rolo compressor paulista “Todos os Mortos”, que pode, e deve (mas não diz que a gente falou, pois tem embargo) render um prêmio coletivo para seu elenco feminino. Nele brilham Mawusi Tulani, Carolina Bianchi, Alaíde Costa, Thaia Perez, Andrea Marquee, Gilda Nomacce e Clarissa Kiste – nela, expressões faciais à la pintura de Paul Klee, em cena, são uma geografia de desterros. Domingo a gente fala disso.

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