Petúnia e a fé no feminino

Petúnia e a fé no feminino

Rodrigo Fonseca

21 de outubro de 2019 | 16h47


RODRIGO FONSECA
Sensação do Festival de Berlim, de onde saiu com o Prêmio do Júri Ecumênico, “Deus é mulher e seu nome é Petúnia” chega enfim ao Brasil diretamente da Macedônia nesta sexta-feira, para incendiar o segundo fim de semana da 43ª Mostra de São Paulo: a projeção vai ser no Petra Belas Artes 1, às 21h30. Vai ter repeteco no sábado, às 19h40, no Cinesala. “God exists, Her name is Petrunya” é um drama de tom cômico, com base em fatos reais, sobre afirmação da condição feminina no embate contra a intolerância. A direção é de Teona Strugar Mitevska que passeia pelo machismo na religião, na Lei e no trabalho: uma jovem que se apodera de uma relíquia vetada a mulheres vira um alvo para o ódio de seus conterrâneos.
“A solidariedade é o caminho para as mulheres”, diz a diretora de 44 anos, conhecida pela curta “Veta” (2001) e pela longa “When the day had no name” (2017).
No roteiro, Teona sintetiza uma série de debates atuais, como a desigualdade salarial entre mulheres e homens, agressão, abuso sexual e fundamentalismo nas religiões. A trama de seu “Gospod postoi, imeto i’e Petrunija” (título original) segue uma historiadora desempregada, Petrunya, ou Petúnia (Zorica Nusheva), cheia de problemas com a mãe, resgata das águas de um rio gelado uma cruz cristã que foi jogada lá por um padre em um ritual de fé só para homens. Seu gesto incendeia uma onda conservadora de repúdio e ela acaba na delegacia, para depor sobre sua “transgressão”. “Venho de um lugar pequeno, onde os homens se acham espertos, mas, diferentemente de Petrunya, eu tenho chance de trabalhar com o que amo”, diz Zorica.

Há mais duas joias da Berlinale na programação da Mostra: “Querência”, de Helvécio Marins Jr. (de MG), e “Cicatrizes” (“Stitches”), de Miroslav Terzic (Sérvia). O novo longa do mineiro por trás de “Nascente” (2005) tem sessão no dia 28, 15h30, no Espaço Itau. Com ecos do cinema documental de Humberto Mauro, em especial “Carro de bois” (1974), este experimento poético de observação do cotidiano de um tratador de gado, com sonhos de se firmar como locutor de rodeios, arrebata não apenas por sua potência visual, mas por sua denúncia da negligência das autoridades diante de crimes ligados a questões fundiárias. É um western sem bangue-bangue, num mundo onde a honra reza para Nossa Senhora.
Já o drama pilotado por Miroslav Terzic, “Cicatrizes”, tem exibição nesta terça, às 19h30, no Espaço Itaú. “Savovi”, no original, transforma em ficção, com potência trágica avassaladora, um crime histórico (e recorrente) nos países que um dia constituíram a Iugoslávia: o rapto de bebês, ainda na maternidade, onde as crianças eram dadas como mortas para seus pais e encaminhadas para adoção em territórios ricos do Velho Mundo. A trama de Terzic acompanha a angústia de uma mulher, Ana (Snezana Bogdanovic), que há 20 anos celebra o aniversário do filho que teria morrido ainda no berçário, neném. Só que o Destino bate à porta de Ana com outra versão dos fatos. Estaria o menino – hoje já um adulto – vivo?

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