Petrópolis sob as bênçãos de ‘Padroeiros’

Petrópolis sob as bênçãos de ‘Padroeiros’

Rodrigo Fonseca

25 de outubro de 2019 | 19h19


RODRIGO FONSECA
Com poder de fogo suficiente para se candidatar a uma vaga cativa no calendário cinéfilo do cinema brasileiro, o IV Festival de Cinema de Petrópolis – que segue até domingo na Região Serrana do Rio de Janeiro com joias como “Veneza”, de Miguel Falabella, e “Mussum, um filme do cadildis”, de Susanna Lira – reservou para seu encerramento uma delicada investigação sobre fé que ilustra a maturidade de um dos mais prolíficos documentaristas do país. Com sessão neste domingo, às 18h45, no Hotel Quitandinha, sede do evento, “Padroeiros Oficiais do Brasil – A Comovente História de Aparecida e Pedro de Alcantara” carrega toda a inquietação do cineasta Emilio Gallo com as incongruências existenciais e os desacertos sociais da realidade de nosso país. Ele é o diretor do obrigatório docudrama “Esse homem vai morrer – Um faroeste cacoclo”, de 2008, com Dira Paes, no qual fala sobre a situação de 14 pessoas juradas de morte no Pará. Dirigiu ainda narrativas essenciais para retratar formas de resistência cultural ou artística, como “Tibira é gay” (2007) e “Wagner Tiso, Coração de Estudante” (2013). Produziu ainda filmes necessários para o entendimento de conflitos comportamentais e tragédias morais de nossa nação, como “Tim Lopes – Histórias de Arcanjo”, de Guilherme Azevedo, que venceu o Festival do Rio de 2013, na disputa pelo troféu Redentor da categoria documental. Gallo é um ninja do Real, que age na surdina, brilhando no momento em que suas reflexões se tornam eticamente significativas para a saúde das narrativas de não ficção. Seu novo trabalho, que vai nascer para os olhos dos espectadores em Petrópolis, discute invisibilidade e resiliência. Ele investiga o fato de São Pedro de Alcântara, um de nossos padroeiros, ao lado Nossa Senhora Aparecida, ter sido “apagado” da visibilidade popular por questões políticas, num quiproquó entre Império e República. Na entrevista a seguir, Gallo canta suas pedras, fundamentais à liberdade de nosso olhar.

Qual é o maior desafio de se filmar fé em tempos de intolerância como os de hoje?
Emilio Gallo:
É renovador perceber que a fé nos torna mais humanos e nos lembra o quanto somos humanos… e pequenos. A fé é o único sentimento que não acaba, o único que depende só de você. Não há interesses externos ou reciprocidades. Você pode cultuar o Deus que quiser: são vários, diferentes. Igual é somente o sentimento da fé. O desafio – não é só meu, mas de todos – é saber respeitar isso, admitir isso. Talvez essa seja a única forma de comunhão entre nós, nos dias de hoje.
Como o .doc foi desenhado em relação à busca de personagens e ao retrato das manifestações religiosas?
Emilio Gallo:
Esse trabalho envolveu uma equipe muito grande, e foi desenhado na sua concepção pela Chamon Produções, em parceria com a Imagem Filmes, e a Patrícia, que é a produtora do filme, me deu essa oportunidade, e conseguiu reunir uma equipe muito comprometida com o projeto. Foi um trabalho sobre fé feito com fé. O roteiro já apontava alguns personagens, mas, como todo documentário bom de fazer, foi na estrada que muitos deles se revelaram para o filme… e nos impressionaram muito com seus exemplos e histórias. Apesar de termos feitos muitas reuniões de roteiro, pesquisas e estudos para o filme, ao final, foram os próprios personagens que nos fornecem o retrato contundente dessas manifestações religiosas.
Sua obra é plural, mas tem uma alta voltagem de política. Onde esse .doc sobre os nossos padroeiros entra em seu coletivo de filmes, como diretor e produtor?
Emilio Gallo:
Fé e política são inseparáveis desde que nos conhecemos como sociedade. Este ano, estou completando 35 anos como jornalista e documentarista. Seria muita ingenuidade de minha parte achar que a fé é a salvação coletiva: ela é individual, apenas, e ponto. É de cada um. O problema começa quando você quer impor ao outro um sentimento e um entendimento que é seu. Não existe verdade absoluta no que é subjetivo. Muitas vezes você se une a um grupo e pensa que são iguais a você, e, se não conseguir perceber que o que existe ali são interesses semelhantes, estará cada vez mais longe de compreender o que é a fé de verdade. No fundo, acho que todos os meus trabalhos estão calcados na fé do homem… ou no homem.
Quais são seus próximos projetos?
Emilio Gallo:
Estamos finalizando o longa documentário “Jorge, O Padroeiro Guerreiro”, sobre o São Jorge e seus fiéis seguidores. O projeto foi feito pela mesma equipe deste longa que levo a Petrópolis. Temos um carinho imenso por esse novo .doc. Se existe um personagem que, inegavelmente, é respeitado por todas as correntes religiosas é São Jorge, e a devoção a ele é muito emblemática e surpreendente. Estou preparando ainda, como produtor, para 2020, o documentário “Roberto Ribeiro – Eu também já fui rei”, que marca a estreia na direção de longas de Bruno Quintella, filho do saudoso Tim Lopes. Logo em seguida, ainda com o Bruno, estarei dividindo a direção de “No Tempo da Noite”, sobre a vida surpreendente do jornalista Irineu Marinho.

p.s.: Na madrugada de sábado para domingo, a TV Globo exibe, às 2h30, o brilhante “Mr. Turner”, de Mike Leigh, que deu a Timothy Spall o prêmio de melhor ator em Cannes em 2014.

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