Petra Costa nas franjas estéticas de ‘Elena’

Petra Costa nas franjas estéticas de ‘Elena’

Rodrigo Fonseca

29 de julho de 2020 | 13h02

Petra Costa, em foto de Jorge Bispo, aborda sua jornada em busca da própria irmã no tocante “Elena”: farol do dia no seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Indicada ao Oscar com o essencial “Democracia em Vertigem”, a mineira Petra Costa leva a discussão sobre como a primeira pessoa do singular se acopla como dispositivo ao documentário ao centro do simpósio Na Real_Virtual, prometendo renovar olhares e quebrar certezas com sua estética sensorialíssima. Online, o evento é realizado às segundas, quartas e sextas, até o dia 14 de agosto, sempre às 19h, sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos. Para saber mais sobre essa série de colóquios, produzida por Márcio Blanco e sua Imaginário Digital, basta consultar a programação no site https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Petra foi escalada para o tema “O eu filmado e minha família”, a partir de seu trabalho no cultuado “Elena” (2012), um dos melhores filmes brasileiros desta década, laureado em festivais em Havana, Los Angeles e Brasília. Nele, Petra relata sua jornada em busca de sua irmã, numa narrativa que fala de luto, e reinvenção afetiva.
Meu desejo com ELENA não era inicialmente fazer um álbum de família. Queria falar da experiência mais desconcertante e profunda que eu tinha vivido, algo que Freud chama de ‘unheimlich’ – algo aterrorizador, mas não por ser alheio mas por ser profundamente familiar. Isso era o suicídio da minha irmã e a confusão com que cresci depois da sua morte de que eu de certa forma estava fadada ao mesmo destino que ela. De que eu era, de certa forma, seu duplo. E me interessava explorar esse tema (tão presente em, por exemplo, ‘Um Corpo que Cai’, de Hitchcock) de uma forma que misturasse ficção com documentário. Nunca tinha visto um documentário sobre um trauma íntimo que se desenrolasse ao mesmo tempo como ensaio, como drama, como documentário. Queria explorar esse encontro de três linguagens”, explica Petra ao P de Pop.

“Elena”: melhor documentário no Festival de Brasília, em 2012

Cada longa que ancora o Na Real_Virtual aborda uma vertente distinta da linguagem documental em voga hoje no Brasil. Os debates passam tanto pela experimentação plástica a partir do registro de um ator em ensaios (“Iran”, de Walter Carvalho) até uma investigação sobre uma civilização ameaçada de desaparição (“500 Almas”, de Joel Pizzini). Para a conversa com Petra, Mattos e Abrantes trazem a somatização da memória e do assombro. “Hoje esse conceito de unheimlich do Freud ganha um significado interessante, quando descobrimos parentes, pais, mães, irmãos, tios que se identificam com uma ideologia que, às vezes, sentimos pregar a nossa morte, a tortura ou a expulsão do país. Como conviver com esse terror tão íntimo?”, questiona a cineasta, laureada mundialmente também com “Olmo e a Gaivota” (2015).
Um dos mais respeitados críticos de cinema do país, Mattos, um dos curadores do Na Real_Virtual, explica que “a subjetividade do realizador de documentários, durante muito tempo reprimida pelos grilhões da ‘objetividade’ e da ‘imparcialidade’, foi liberada nas últimas três décadas, o que gerou toda uma nova perspectiva do fazer documental”. “No Brasil, Petra Costa vem se mostrando uma das mais férteis praticantes desse tipo de narrativa em que o corpo e a voz do diretor/diretora encarnam uma consciência ativa dentro do filme”, explica Mattos.

Parceiro de Mattos na concepção do Na Real_Virtual, Abrantes, diretor de “Recife/ Sevilha – João Cabral de Melo Neto” (2003), fala em delicadezas “Os filmes da Petra, em particular, ‘Elena’ e ‘Democracia em Vertigem’, associam momentos da História, com H maiúsculo, de nosso país, com vivências pessoalíssimas e intransferíveis. A subjetividade como matéria prima é uma das principais faixas do documentário contemporâneo brasileiro, produzido nas duas últimas décadas. ‘Elena’, em particular, ainda agrega outra característica marcante desses docs: o delicado e agudo senso estético”, diz Abrantes.
O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

Palestrante desta sexta-feira no evento, Walter Carvalho vai lançar um filme inédito esta noite no Arte 1: “Caruatá – Veja o Lugar Que Me Vê”, às 19h30.

p.s.: À 1h50 desta madrugada, a Globo exibe “Força Maior” (“Force Majeure”, 2014), filme que deu fama (e controvérsia) ao sueco Ruben Östlund, ganhador da Palma de Ouro de 2017 por “The Square”. Indicado ao Globo de Ouro em 2015, o longa saiu de Cannes com o prêmio especial do júri da mostra Un Certain Regard, há seis anos. Sua trama foi refilmada este ano, com Julia Louis-Dreyfus e Will Ferrell, sob a direção de Nat Faxon e Jim Rash, com o título “Downhill”. No enredo original, um pai de família escandinava, Tomas (Johannes Bah Kuhnne), vê sua autoconfiança ruir durante uma viagem pelos Alpes Franceses. Durante uma avalanche, no hotel onde se hospedou com os filhos e a mulher, Ebba (Lisa Loven Kongsli), ele entra em pânico e foge, sem proteger seus entes queridos. Essa atitude fratura sua relação com Ebba e consigo mesmo. No Brasil, Rosangela Mello é a dubladora de Ebba e Felipe Grinnan (um dos maiores talentos do setor) dubla Tomas. A sessão tem projeção simultânea no Globoplay.

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