Petra Costa e a arte de transcender o eu

Petra Costa e a arte de transcender o eu

Rodrigo Fonseca

30 de julho de 2020 | 10h45

Petra Costa fala de sua estética no seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Mais do que oferecer aos internautas a chance de matar saudades e compreender (na medula) os bastidores de um dos maiores filmes gestos de transcendência feitos por nosso cinema nos anos 2010, chamado “Elena”, o encontro virtual com a cineasta Petra Costa, promovido pelo seminário online Na Real_Virtual, presenteou seus interlocutores com reflexões sobre o lugar do “eu”, da primeira pessoa do singular, nas práticas do documentário. O papo correu na noite de quarta, no simpósio organizado sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos e produzido por Márcio Blanco e a Imaginário Digital, buscando depurar todo o lirismo da realizadora que disputou o Oscar com “Democracia em Vertigem”.
“Se ‘Elena’ fala do primeiro rito de passagem, das enchentes de loucura, o ‘Olmo e a Gaivota’ fala do próximo rito, que é ser ou não ser mãe, que não é, ou não precisa ser, uma obrigação, mas que é uma decisão. Toda decisão é um dilema. E ali aparece a maternidade como morte da identidade anterior. São transições. Uma vez transitada era ora de olhar pra fora”, disse Petra aos inscritos no seminário, fazendo uma analogia entre os filmes de seu percurso como realizadora, em resposta a Mattos, ao falar do caminho que levou-a até seu filmaço sobre o Impeachment, hoje na Netflix. “O trauma ali não é no próprio corpo, mas num corpo social. É a perda de um país e de possibilidade de futuro”
No site https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020 estão as informações sobre a lista de conversas de Na Real_Virtual, que vem prestando contribuição inestimável ao debate sobre as práticas e teorias conexas à não ficção no Brasil e no mundo. Cada uma das conversas expõe um raciocínio singular sobre alteridade, responsabilidade social/política e escolha de construção de quadro, como delicadamente falaram Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães e Carlos Nader. Petra foi escalada para o tema “O eu filmado e minha família”, a partir de seu trabalho no cultuado “Elena” (2012), laureado em festivais em Havana, Los Angeles e Brasília. “Quando eu fiz o curta ‘Olhos de Ressaca’, eu vinha da Antropologia e do Tetro. Naquele filme, numa parceria com a Ava Rocha e o Eryk Rocha, ele me libertaram da racionalidade. Via a montagem como um mal a evitar. Com a Ava, aprendi a alquimia da montagem”, disse a cineasta, que esculpiu “Elena” como uma coreografia sensorial. “É uma dança com a morte”.

Nele, Petra relata sua jornada em busca de sua irmã, numa narrativa que fala de luto, e reinvenção afetiva. “Se em ‘Elena’, a Petra se voltava para sua própria família, em ‘Democracia em Vertigem’ essa consciência ativa se fez política e resultou em obra fundamental para compreendermos nosso tempo”, definiu Mattos ao P de Pop. Seu parceiro de curadoria, Bebeto Abrantes complementa: “No ‘Elena’, as imagens nos envolvem e reafirmam a atmosfera triste e altamente poética deste seu trabalho. Esse o encantamento desse filme”.
O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Resposta europeia ao cult “Operação França” (1971), “A Conexão Francesa” (“La French”, 2014), de Cédric Jimenez, com Jean Dujardin no combate as drogas, é a melhor aposta da grade de filmes do Globoplay.

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