‘Petite Solange’ e ‘After Blue’: França em alta

‘Petite Solange’ e ‘After Blue’: França em alta

Rodrigo Fonseca

07 de agosto de 2021 | 16h05

Rodrigo Fonseca
Sem se deixar ameaçar pela intimidadora presença de um mestre do naipe de Abel Ferrara (de volta com “Zeros and Ones”) na disputa pelo Leopardo de Ouro de 2021, a França chegou ao 74º Festival de Locarno com fome de ganhar, a julgar pelo barulho que causou aqui com “After Blue (Paradis Sale)”, de Betrand Mandido, e com “Petite Solange”, de Axelle Ropert. Em meio a uma seleção competitiva que celebra a força do cinema de gênero, ambos injetam lirismos aos filões a que se reportam. Ex-crítica de cinema (ferocíssima, aliás), Axelle revisita o melodrama em uma trama sobre separações. Já Mandico bebe das águas da fantasia, criando um mundo em que (segundo as personagens) “só pessoas com ovários” sobrevivem, numa alegoria multicolorida sobre a força do feminino. A estética queer de seu longa anterior, “Os Garotos Selvagens” (2017), fez dele um queridinho da revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do audiovisual. Mas seu novo trabalho tem bem mais vigor, não apenas em sua dramaturgia (capaz de evocar western, Jodorowsky e HQs de Moebius) como na direção de arte exuberante. O regresso de Ropert às telas também tem um vigor que seus trabalhos anteriores não apresentavam, apesar da contundência de seu “La Prunelle De Mes Yeux” (2016).
“Não quero filmes cheios de histeria, em que as pessoas se odeiem e, sim, filmes que não têm medo de falar”, disse Axelle ao Estadão, em Locarno.

Seu “Petite Solange” foi o primeiro destaque da disputa de prêmios de Locarno, que começou na última quarta com “Beckett”, thriller produzido por Rodrigo Teixeira. Axelle trouxe à Suíça uma carta de amor aos filmes sobre o desabrochar da juventude, ainda que seja uma epístola triste. Na trama, seguimos a desagregação de uma família, entre traições e decepções de um casal (Léa Drucker e Philippe Katerine), do ponto de vista de uma menina (Jade Springer). A cineasta raramente mostra suas jovens ao celular ou enfurnadas em computadores. Ela põe em cena uma garotada que ainda compartilha suas inquietudes olhando nos olhos, mesmo que estes estejam marejados.
“Não queria de modo algum que este fosse um drama psicológico e, sim, uma observação das mais simples sobre a educação sentimental que fazemos ao lidar com a solidão e perceber que esta pode ser libertadora”, diz a cineasta, que demonstra nítida influência de Éric Rohmer (1920-2010), realizador de “O Joelho de Claire” (1970) e outras joias, muito palavrosas, sempre debruçadas sobre o querer. “Rohmer foi o maior diretor francês de seu tempo, ainda que se fale tão pouco dele. Nele havia mistério. E simplicidade. Fora a sabedoria de dizer que filmes devem ser otimistas, por serem reflexos da vida. Meu filme fala de dor, mas celebra o amor, como ele fazia. A dor de que eu falo não é a que despedaça, mas a que endurece, a que torna as pessoas diamantes”.

Bertrand Mandico

Mandico até agora é o cineasta que mais deu nó em Locarno. Seu belíssimo filme, de uma direção de arte exuberante, cria um mundo paralelo, cheio de criaturas estranhas (leia-se gosmentas e fálicas), no qual só as mulheres existem e sobrevivem, à exceção de um homem cego. A trama acompanha os esforços de uma jovem para caçar e matar uma espécie de bruxa, a quem salvou sem ter dimensão de seus poderes. Tudo é onírico, sexy e esfumaçado no longa, amparado pela fotografia de Pascale Granel.
Fora da briga pelos Leopardos, “o” filme de Locarno é o sul-coreano “Sinkhole” (“Sing-keu-hol”), de Kim Ji-hoon, o primeiro cineasta internacional a se firmar aqui, este ano, como uma promessa: para a crítica e para as bilheterias. Orçado em US$ 12 milhões, seu divertidíssimo filme é uma mistura de chanchada com filme catástrofe. Em sua primeira meia hora, acompanhamos as confusões de um casal de classe média que se muda para um apartamento requintado, comprado a duras penas. Os dois se divertem (e alegram a gente também) com suas inabilidades diante de uma nova realidade econômica e com um faz-tudo bicão do prédio. Tudo parece uma boa comédia com Leandro Hassum até que uma chuva danifica as estruturas do prédio e tudo desmorona, terra abaixo, com o concreto se esburacando até se assemelhar a um ralo.
Neste sábado, Locarno conferiu o melhor do cinema brasileiro com “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis. Seu curta dialoga com a recente onda do “extraordinário”, ou seja, a vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do terror, para o apocalipse em uma fábrica do ABC Paulista. Difícil não pensar na luz de “Christine, o Carro Assassino” (1983) diante da fotografia de Alice Andrade Drummond e Bruno Risas. A sequência de uma discussão sobre os rumos de uma linha de montagem evoca desde o seminal “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (Palma de Ouro de 1972), do italiano Elio Petri, até o português “A Fábrica de Nada” (2017), de Pedro Pinho. A montagem de Cristina Amaral leva o clima sombrio à ebulição.
Locarno termina dia 14, com a exibição de “Respect”, com Jennifer Hudson vivendo Aretha Franklin.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.