‘Petite Maman’ explode em Mannheim-Heidelberg

‘Petite Maman’ explode em Mannheim-Heidelberg

Rodrigo Fonseca

11 de novembro de 2021 | 12h11

RODRIGO FONSECA
Um dos maiores e mais prestigiados festivais da Alemanha está rolando até o próximo 21 em terras germânicas e online, em sua 70ª edição: o International Film Festival Mannheim-Heidelberg (IFFMH). O magistral cineasta francês Claude Lelouch (“Um Homem, Uma Mulher”) e a badalada diretora inglesa Andrea Arnold (“Fish Tank”) estão sendo homenageados no evento que vai exibir produções memoráveis como “Petite Maman”, joia de Céline Sciamma. Dois anos depois da consagração de “Retrato de uma Jovem em Chamas”, ganhador do prêmio de melhor roteiro em Cannes, ela refinou sua dramaturgia num novo filme, um dos mais elogiados da Berlinale 2021, onde disputou o Urso de Ouro de 2021.
Pequenininho (70 minutos), silencioso e sem gordurinhas, este drama é um filme COM crianças e SOBRE as crianças que moram dentro de qualquer alma adulta. Logo, é um filme sobre rituais de passagem, sobre crescer. Só que o verbo doer é conjugado de maneira menos angustiante, e mais lúdica, quando fotografado com o realismo de Claire Mathon, a força da natureza que galvaniza a poética de Céline com uma luz sem um pingo de rebuscamento.
No tênue limiar entre as histórias para miúdos e os dramas de luto para gente grande, “Petite Maman” traça de uma maneira libertária as fronteiras entre aquilo que parece um facto e o que se supõe imaginação, numa maneira muito parecida ao do seu filme anterior. Em “Retrato da Rapariga em Chamas”, duas mulheres faziam do amor um refúgio onde todos os planos podiam ser, no mínimo, idealizados, mesmo com a (cons)ciência de que esbarrariam numa realidade crua. Numa certa medida, Laure, a protagonista de “Tomboy” (outro filme famoso de Céline, de 2011), fazia-se passar por Mickäel, acreditando piamente na identidade que escolheu ter, mesmo certa do peso da sua identidade social imposta no berço. Com Céline é sempre assim: há um instante onde o querer pode ser poder. E o poder de “Petite Maman” é o do preenchimento de um vazio, da suspensão de uma saudade.

As atrizes mirins do novo longa da diretora de “Retrato de uma Jovem Chamas”

Aos 8 anos, Nelly (Joséphine Sanz) sabe que a sua mãe vai se afastar, para resolver alguns problemas, deixando ainda mais oca a casa de campo da sua avó, que acaba de morrer. Às vésperas de partir daquele mundo de matas verdes, ela conhece outra menina (Gabrielle Sanz), que, não por acaso, tem o mesmo nome da sua mãe: Marion. Ali começa um jogo de projeção que, por alguns minutos, leva-nos a nos sentirmos numa fábula, parecendo ser tudo inventado pela cabeça da protagonista. Mas, por vezes, tudo é de um realismo que dói. E arrebata, como tudo de Céline.
Uma das produções brasileiras que estão em destaque no Festival Mannheim-Heidelberg é “Os Primeiros Soldados”, de Rodrigo de Oliveira. O longa aborda a luta de pessoas soropositivas. A genial Renata Carvalho está no elenco.

p.s.: No dia 17 de novembro, as atenções da internet vão se voltar pro Museu da Pessoa (https://museudapessoa.org/seminariobndes/), que promove, às 12h, uma palestra com o escritor turco Orhan Pamuk, Prêmio Nobel de Literatura de 2006, autor de “Neve” e “A Casa do Silêncio”. O mote de seu debate é a lógica dos museus do século 21. Em 2012, Pamuk fundou um museu em uma casa em Istambul, cujo acervo traz uma série de objetos cotidianos usados com base para a criação das personagens do livro.

p.s. 2: Após hiato de um ano por conta da pandemia do coronavírus, o Festival Ópera na Tela volta ao Parque Lage, no Rio de Janeiro, em sua sexta edição. De 13 a 24 de novembro o jardim do palacete recebe uma estrutura em forma de tenda montada a céu aberto, com poltronas confortáveis e uma tela gigante, em que os espetáculos serão projetados com som e imagem de alta qualidade. O evento conta com programação inédita no país: 11 récitas europeias, uma Gala do Teatro Alla Scala de Milao com cantores consagrados e, pela primeira vez, um balé: “O Corcunda de Notre Dame”, da Ópera de Paris, com a famosa coreografia do Roland Petit. Tudo isso a preços acessíveis. Os ingressos custam R$14 (meia entrada) / R$28 (inteira) e estão à venda no local ou em Sympla.com.br.

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