‘Petite Maman’ comove o Egito

‘Petite Maman’ comove o Egito

Rodrigo Fonseca

03 de dezembro de 2021 | 05h23

RODRIGO FONSECA
Termina neste domingo a 43ª edição do Festival do Cairo, que exibe para o Egito, em sua reta final, produções memoráveis como “Petite Maman”, joia de Céline Sciamma. Dois anos depois da consagração de “Retrato de uma Jovem em Chamas”, ganhador do prêmio de melhor roteiro em Cannes, ela refinou sua dramaturgia num novo filme, um dos mais elogiados da Berlinale 2021, onde disputou o Urso de Ouro de 2021. Sua bilheteria na França foi de cerca de 60 mil pagantes, um número mirrado, que refletiu o esvaziamento das salas em meio à pandemia. Mas quem viu elogiou… e muito.
Pequenininho (70 minutos), silencioso e sem gordurinhas, este drama é um filme COM crianças e SOBRE as crianças que moram dentro de qualquer alma adulta. Logo, é um filme sobre rituais de passagem, sobre crescer. Só que o verbo doer é conjugado de maneira menos angustiante, e mais lúdica, quando fotografado com o realismo de Claire Mathon, a força da natureza que galvaniza a poética de Céline com uma luz sem um pingo de rebuscamento.
No tênue limiar entre as histórias para miúdos e os dramas de luto para gente grande, “Petite Maman” traça de uma maneira libertária as fronteiras entre aquilo que parece um facto e o que se supõe imaginação, numa maneira muito parecida ao do seu filme anterior. Em “Retrato da Rapariga em Chamas”, duas mulheres faziam do amor um refúgio onde todos os planos podiam ser, no mínimo, idealizados, mesmo com a (cons)ciência de que esbarrariam numa realidade crua. Numa certa medida, Laure, a protagonista de “Tomboy” (outro filme famoso de Céline, de 2011), fazia-se passar por Mickäel, acreditando piamente na identidade que escolheu ter, mesmo certa do peso da sua identidade social imposta no berço. Com Céline é sempre assim: há um instante onde o querer pode ser poder. E o poder de “Petite Maman” é o do preenchimento de um vazio, da suspensão de uma saudade.

As atrizes mirins do novo longa da diretora de “Retrato de uma Jovem Chamas”

Aos 8 anos, Nelly (Joséphine Sanz) sabe que a sua mãe vai se afastar, para resolver alguns problemas, deixando ainda mais oca a casa de campo da sua avó, que acaba de morrer. Às vésperas de partir daquele mundo de matas verdes, ela conhece outra menina (Gabrielle Sanz), que, não por acaso, tem o mesmo nome da sua mãe: Marion. Ali começa um jogo de projeção que, por alguns minutos, leva-nos a nos sentirmos numa fábula, parecendo ser tudo inventado pela cabeça da protagonista. Mas, por vezes, tudo é de um realismo que dói. E arrebata, como tudo de Céline.

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