‘Petite Maman’: chamas da infância

‘Petite Maman’: chamas da infância

Rodrigo Fonseca

18 de setembro de 2021 | 11h00


RODRIGO FONSECA

Foi uma injustiça o júri da Berlinale ter ignorado a potência poética de “Petite Maman”, filme recente da francesa Céline Sciamma, que está deixando o 69. Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, em polvorosa atrás de uma chance de conferir o belíssimo novo filme da diretora de “Retrato de uma Jovem em Chamas” (2019). A sessão deste sábado, na cidade espanhola, estava apinhada de fãs da cineasta e de curiosos acerca de sua abordagem para a infância.

Pequenininho (70 minutos), silencioso e sem gordurinhas, este drama é um filme COM crianças e SOBRE as crianças que moram dentro de qualquer alma adulta. Logo, é um filme sobre rituais de passagem, sobre crescer. Só que o verbo doer é conjugado de maneira menos angustiante, e mais lúdica, quando fotografado com o realismo de Claire Mathon, a força da natureza que galvaniza a poética de Céline com uma luz sem um pingo de rebuscamento.
No tênue limiar entre as histórias para miúdos e os dramas de luto para gente grande, “Petite Maman” traça de uma maneira libertária as fronteiras entre aquilo que parece um facto e o que se supõe imaginação, numa maneira muito parecida ao do seu filme anterior. Em “Retrato da Rapariga em Chamas”, duas mulheres faziam do amor um refúgio onde todos os planos podiam ser, no mínimo, idealizados, mesmo com a (cons)ciência de que esbarrariam numa realidade crua. Numa certa medida, Laure, a protagonista de “Tomboy” (outro filme famoso de Céline, de 2011), fazia-se passar por Mickäel, acreditando piamente na identidade que escolheu ter, mesmo certa do peso da sua identidade social imposta no berço. Com Céline é sempre assim: há um instante onde o querer pode ser o poder. E o poder de “Petite Maman” é o do preenchimento de um vazio, da suspensão de uma saudade.
Aos 8 anos, Nelly (Joséphine Sanz) sabe que a sua mãe vai se afastar, para resolver alguns problemas, deixando ainda mais oca a casa de campo da sua avó, que acaba de morrer. Às vésperas de partir daquele mundo de matas verdes, ela conhece outra menina (Gabrielle Sanz), que, não por acaso, tem o mesmo nome da sua mãe: Marion. Ali começa um jogo de projeção que, por alguns minutos, leva-nos a nos sentirmos numa fábula, parecendo ser tudo inventado pela cabeça da protagonista. Mas, por vezes, tudo é de um realismo que dói. E arrebata, como tudo de Céline.

Aplausos marcaram a presença da Argentina em San Sebastián, na mostra Horizontes Latinos, que foi aberta na sexta por “Jesús López”, do diretor Maximiliano Schonfeld. Trata-se de um “filme de fantasma”. O personagem do título nunca é visto, mas sua presença é sentida como uma assombração, mexendo com a paz dos moradores de uma cidadezinha, abalada com sua morte.

Está lotada a sessão que a Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, a Fipresci, promove neste sábado em homenagem à diretora Chloé Zhao e à produtora e atriz Frances McDormand em tributo ao longa “Nomadland”, que a associação de críticos votou como sendo o melhor filme de 2021. A produção recebeu o Oscar de melhor filme, em abril, narrando o périplo de uma professora aposentada que, assombrada pelo desemprego, viaja América adentro em seu trailer.

Na semana que vem, San Sebastán terá um horário vazio em sua grade, a ser ocupado por um filme surpresa. Estima-se que será
“Sempre Em Frente” (“C’mon C’Mon”), do diretor Mike Mills (de “Toda Forma de Amor” e “Mulheres do Século 20”), apoiado no talento de Joaquin Phoenix, em seu primeiro trabalho após o fenômeno “Coringa” (2019). No filme de Mills, Phoenix interpreta um jornalista que precisa cuidar do seu jovem sobrinho enquanto embarca em uma viagem pelos Estados Unidos, com o objetivo de entrevistar crianças sobre o que elas pensam acerca do futuro.
San Sebastiá chega ao fim no dia 25, com a entrega de prêmios.

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