‘Peter von Kant’ vai comover o Brasil via Varilux

‘Peter von Kant’ vai comover o Brasil via Varilux

Rodrigo Fonseca

17 de junho de 2022 | 15h06

Denis Ménochet é Peter von Kant, um cineasta que ama demais e sofre em demasia

Rodrigo Fonseca
Tá confirmado o circuito Varilux aqui no Rio de Janeiro, para 13ª edição do festival francês, que, de 21 de junho a 6 de julho, vai mobilizar cerca de 50 cidades em todo o país: Cinemark Downtown, Espaço Itaú de Cinema Botafogo, Estação NET Rio, Estação NET Gávea, Estação NET Botafogo, Cine Casal Museu da República, Cine Santa e Instituto Moreira Salles. Grife de excelência curatorial e de mobilização popular, o evento vai exibir 19 longas-metragens este ano, além de séries de TV e streaming. Um dos títulos mais esperados é “O Acontecimento” (“L’Événement”), que rendeu à diretora Audrey Diwan o Leão de Ouro de Veneza, em 2021. Já está assegurado em seu cardápio a abilolada dramédia “Esperando Bojangles” (“En attendant Bojangles”), de Régis Roinsard, vista por meio milhão de pagantes em terras francesas, à força do carisma de Romain Duris, Virginie Efira, Grégory Gadebois. Roisnsard virá ao Brasil, para participar de bate-papos com as plateias. Virá ainda o galã e cineasta Gilles Lellouche, os cineastas Carine Tardieu, Jérôme Salle, Diastème e Eric Gravel. Mas o filé da programação é “Peter von Kant”, o novo longa de François Ozon, hoje em cartaz no país com “Está Tudo Bem” (“Tout S’Est Bien Passé”). O prolífico diretor retorna agora com uma homenagem a Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), que foi exibida na abertura da Berlinale. E ovacionada.
Artífice do melodrama, essencial para a reestruturação do gênero no pós-guerra cartografando intolerâncias como a homofobia, o etarismo e a xenofobia, Fassbinder é uma paixão de Ozon desde seus tempos de estudante, quando assistiu a “O Casamento de Maria Braun” (1979) e outros cults do mestre alemão na faculdade. Embora um de seus primeiros sucessos nos cinemas tenha sido a adaptação de uma peça do artesão do folhetim, “Gotas d’Água em Pedras Escaldantes”, ganhador do prêmio Teddy (a láurea LGBTQ+ da Berlinale) em 2000, o diretor parisiense de 54 anos sempre sonhou em oferecer a outros fãs da estética fassbinderiana uma releitura daquele universo capaz de surpreender olhares.
“Eu me sinto em casa no melodrama e agredeço quando me associam a uma genealogia onde estão Douglas Sirk e Almodóvar. E essa genealogia vem de Fassbinder”, disse Ozon ao Estadão em Berlim, em fevereiro. “Vi muito Fassbinder quando estava na faculdade e me formava, descobrindo a força do melodrama como um espaço de investigação das inconstâncias afetivas de todos nós”, disse Ozon na Berlinale.
Seu novo longa é uma releitura de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, uma peça teatral escrita por Fassbinder em 1971 e filmada por ele mesmo em 1972. No longa original, Margit Carstensen era Petra, uma estilista de renome apaixonada por Karin, interpretada por Hanna Schygulla (a diva de Rainer Werner), e consolada por sua secretária, Marlene (Irm Hermann). Agora, em cena, estão Denis Ménochet e Isabelle Adjani.
“Eu trouxe Schygulla comigo. Ao fazer esse mergulho mais específico em sua obra, eu pedi que Adjani regravasse uma canção que estava em ‘Querelle’, um dos cults de Fassbinder, cantando em alemão, coisa que ela faz muito bem, como a grande cantora que é. Eu trouxe muitos hits românticos do passado”, alerta Ozon, que dirige um ator em fase de apogeu: Denis Ménochet.

A diva Hanna Schygulla veio do longa original para versão de Ozon

Visto em “7 Dias e Entebbe” (2018), de José Padilha, Ménochet foi aclamado em Veneza, em 2017, em “Custódia”, e arrebatou elogios por sua atuação em “Graças Deus”, que deu a Ozon o Grande Prêmio do Júri de Berlim, em 2019. Agora, ele vive Peter von Kant, um cineasta de prestígio que enlouquece de amor por um garotão, Amir (Khalil Ben Gharbia), apresentado a ele por sua amiga e musa, a atriz Sidonie (Adjani).
“Uma das coisas que eu mais admiro em Fassbinder é a maneira como ele trabalhava sempre com os mesmos atores, buscando dessa sua trupe uma proposta nova”, disse Ozon. “O maior desafio agora com Peter von Kant é o simbolismo de estar exibindo o filme em Berlim 50 anos depois de ‘As Lágrimas Amargas de Petra von Kant’ ter concorrido ao Urso de Ouro. Ele passou lá em uma sessão em 1972. E depois da Berlonale, quero ainda surpreender os espectadores”.

“Jovens Amantes”

Outro filmaço do Varilux é “Os Jovens Amantes” (“Les Jeunes Amants”), de Carine Tardieu. Cada vez mais brilhante em cena, Fanny Ardant utiliza todo o ferramental cênico que acumulou desde “A Mulher do Lado” (1981) para traduzir o empoderamento de uma septuagenária que se recusa a ser refém dos ditames sociais do etarismo e do sexismo. Nesta trama, Fanny brilha no papel de Shauna, uma mulher de 71 anos que reencontra um antigo amor, Pierre (Melvil Poupaud, um ator em fase de apogeu profissional), hoje com 45. Opostos em suas crenças, mas hipnotizados um pelo outro, eles se reconectam, enquanto Shauna, que já é mãe, avó e viúva, quer reafirmar sua potência apesar da diferença de idade entre eles. Cécile de France brilha no elenco.

p.s.: Prestes a regressar aos cinemas no papel de um super-herói aposentado em “Samaritan” e já assegurado no terceiro tomo da franquia “Guardiões da Galáxia”, revivendo Stakar Ogord, Sylvester Stallone tem mobilizado espectadores com o trailer de “Tulsa King”, a primeira experiência como protagonista de série de sua carreira, iniciada em 1969. Estreia dia 13 de novembro na Paramount +. Taylor Sheridan, responsável pelo sucesso “Yellowstone”, é um dos criadores do projeto, que tem Terence Winter (de “A Família Soprano”) à frente do roteiro e da concepção de um universo mafioso. Stallone encarna Dwight Manfredi, o General, um gângster que passou 25 anos no xilindró e sai da cadeia com a missão de erguer uma célula da máfia em Tulsa, encarando uma realidade social diferente daquela em que se configurou como um criminoso assustador.

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