Pérola ítalo-carioca de Bellocchio estreia dia 14

Pérola ítalo-carioca de Bellocchio estreia dia 14

Rodrigo Fonseca

30 de março de 2022 | 11h58

RODRIGO FONSECA
Habemus Bellocchio. Depois de muita espera, de três anos de expectativa, de 21 troféus, “O Traidor” (“Il Traditore”) vai enfim estrear aqui, via Pandora, no dia 14 de abril, e isso num momento em que o cineasta, hoje com 82 anos, está finalizando “La Conversione”, no qual recria o sequestro do menino Edgardo Mortara, filho de judeus da Bolonha, que foi raptado em 1858 e criado como católico. Ano passado, ele saiu da Croisette com uma Palma de Ouro honorária pelo conjunto de serviços prestados à telona desde o Cinema Novo, quando brindou o mundo com “De Punhos Cerrados” (1965), hoje na grade da MUBI. E concorreu ao prêmio cannoise em 2019 com essa joia, rodada parcialmente no Rio de Janeiro, que estreia em nosso circuito em duas semanas, resgatando a saga carioca do mafioso Tommaso Buscetta (1928-2000). Um resgate que deixa as plateias grudadas nas poltronas. É filme para se aplaudir de pé. Mais próximo dos thrillers políticos de Costa-Gavras (como “Z”) que do tom épico de tintas românticas dos gângsteres de “O Poderoso Chefão” (1972) e que da criminalidade ordinária de “Os Bons Companheiros” (1990), o eletrizante “O Traidor” (“Il traditore”) faz o Cinema rever suas certezas históricas sobre a Itália, sobre o Brasil da ditadura militar e sobre os clássicos de máfia das telas. Produzido pelos irmãos Fabiano e Caio Gullane, rodado parcialmente no Rio e estrelado por talentos brasileiros como Luciano Quirino, Jonas Bloch e uma Maria Fernanda Cândido majestosa, o filme revive os dias em que Buscetta fez o Brasil de lar, no abraço sempre caloroso de sua mulher, a carioca Maria Cristina de Almeida Guimarães. Ela é vivida por Maria Fernanda, nas raias do esplendor. Tommaso foi confiado ao romano Pierfrancesco Favino (visto em “Guerra Mundial Z” e “Anjos e demônios”).
“Heroísmo é uma palavra que eu atribuo a santos: estes se sacrifício pelo Bem, Buscetta, não, pois seu maior objetivo era salvar a própria pele e gozar dos prazeres do dinheiro que ganhou no crime”, disse Bellocchio ao Estado em Cannes, numa entrevista em que não escondia a fadiga. “Já não sou mais garoto, viajei ontem e temos uma maratona hoje. Este é um filme sobre a dimensão trágica de um homem que usou a palavra para desafiar um império, a Cosa Nostra, em nome não apenas da própria salvação e de sua família, mas da decepção com o rompimento de pactos históricos de respeito da máfia a valores morais”.

Uma explosão de um carro, filmada sob a ótica do motorista, é um dos planos mais debatidos onde quer que o filme passe. O clima de tensão se estende ainda para as cenas da vida a dois de Buscetta e Cristina, pelas inesperadas intervenções da polícia e adversários de submundo na rotina deles. “Há uma dimensão de lealdade amorosa muito forte dessa história entre Cristina e Tommaso que a fez desafiar a família, a sociedade e tudo o mais em nome do afeto. Às vezes, neste filme, eu me pergunto se a Maria Cristina reavalia as escolhas que tomou em nome desse amor”, disse Maria Fernanda Cândido ao Estadão nas filmagens do longa, no Rio. “É impressionante o quanto o Bellocchio é aberto ao instante da criação, com uma disposição generosa de ouvir a gente, de absorver nossas ideias. Eu estou vivendo uma mulher culta, de uma família influente no Rio de Janeiro dos anos 1980, que teve a coragem de desafiar as convenções da alta sociedade carioca para ficar do lado do homem que amava, um homem envolvido com o crime”.

Bellocchio com Favino no set

Um dos pilares do cinema moderno na Itália, na geração que herdou as inquietações sociais do neorrealismo, Bellocchio tem no currículo pérolas como “Vincere” (2009) e “Belos sonhos”, que inaugurou a Quinzena dos Realizadores de 2016. “Eu não sido discursos lógicos da política ao falar de Buscetta pois me interessava mais o senso de espetáculo teatral, digno de Pirandello, dos julgamentos pelos quais ele passou. Era um circo em que a insuficiência de provas mudava os rumos do picadeiro de advogados e juízes”, explicou o cineasta, que, nos sets brasileiros, contou com a consultoria do diretor André Ristum (realizador de “A voz do silêncio” que, na juventude, começou sua carreira na Itália, como assistente de Bertolucci), para evitar erros de caracterização. “Tive que condensar pedaços da história de Buscetta no Brasil com liberdades e licenças poéticas que o cinema nos oferece. Esta produção custou € 9 milhões, o que só foi possível com o apoio dos parceiros brasileiros, alemães e franceses”.
Escondido no Rio dos anos 1980, sob outra identidade, para evitar um derramamento de sangue já que custara a vida de seus filhos, Buscetta foi preso lá, na cidade que adotou como lar, acusado de tráfico internacional de drogas e extraditado. Conseguiu fugir da cadeia e retornou ao Brasil, de onde foi expulso pela segunda vez em 1983. Foi então que fez o acordo para delatar centenas de criminosos e expor as conexões da Cosa Nostra com a política italiana. “A traição de Buscetta, ao delatar a Cosa Nostra à Justiça da Itália, é carregada de ambiguidade. Ele não trai por uma conveniência. Ele trai porque, antes dele, com a entrada do tráfico de drogas nas atividades da máfia e uma guerra de sangue, alguém desrespeitou aquilo que antes era sagrado para eles. E o sagrado é, justamente, a palavra. A palavra da honra”, diz Bellocchio, “Sempre quis que ‘O traidor’ fosse um filme sobre escolhas. Este título pode parecer óbvio para alguns, mas ele sintetiza, de modo objetivo, algo que, na trama, assombra os pesadelos de Buscetta : decepcionar seu passado”.

p.s.: Com uma trajetória de sucesso ao apresentar os grandes nomes da MPB para as novas gerações, o projeto ‘Grandes Músicos para Pequenos’ apresenta seu mais recente espetáculo no palco do Teatro Multiplan, na Barra da Tijuca, a partir do dia 2 de abril. Com direção de Diego Morais, direção musical de Guilherme Borges e texto de Pedro Henrique Lopes, “Pimentinha – Elis Regina para Crianças” faz uma grande homenagem à cantora em peça que mostra a importância da autoestima, e questiona os padrões de beleza impostos às mulheres. Na trilha sonora, estão grandes clássicos da MPB imortalizados por Elis Regina, como “Fascinação”, “O Bêbado e a Equilibrista”, “Madalena” e “Como nossos pais”, em arranjos pensados para as novas gerações. “Buscamos inspiração na história de Elis Regina, em seus primeiros passos como artista, para trazer ao palco a importância de assumir sua personalidade desde cedo”, comenta o autor Pedro Henrique Lopes. As sessões serão as sábados e domingos, às 16h, até 1º de maio.

p.s.2: A partir da difícil experiência do isolamento e da solidão, vivida durante a pandemia, o coreógrafo Renato Vieira sentiu a urgência de criar um espetáculo que inspirasse o desejo de liberdade e celebrasse a importância dos encontros. “Suíte Rock – Para loucos e amantes”, que estreia, dia 7 de abril, no CCBB RJ, tem o desafio de juntar em cena bailarinos e músicos em novas expressões artísticas que reflitam sobre as relações e desejos que surgem em um mundo pós-confinamento. Com direção de Renato Vieira e codireção de Bruno Cezario, a obra inédita da Renato Vieira Cia de Dança dá continuidade à pesquisa do grupo, que frequentemente mistura elementos eruditos e populares. Desta vez, sucessos de Led Zeppelin, Supertramp, Pink Floyd, Queen, Sting, R.E.M e The Rolling Stones, executados ao vivo por um quarteto de cordas, celebram a união entre o rock e a música de concerto. O projeto é patrocinado pelo Banco do Brasil. “Em todo o mundo, as ruas ficaram vazias, e as pessoas, dentro de casa, cheias de arte. Estar em um mundo em suspensão e ouvir o acorde de um celista me fez transbordar num infinito de emoções. Daí a urgência de criar um espetáculo pós-confinamento que sirva para aguçar o som poético de um acorde de um violoncelo, um violino, um movimento, uma sequência coreográfica”, explica Renato Vieira.

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