Pérola chinesa de Diao Yi’nan e boas de Roterdã

Pérola chinesa de Diao Yi’nan e boas de Roterdã

Rodrigo Fonseca

18 de dezembro de 2019 | 11h28

Rodrigo Fonseca
Às vésperas de seu encerramento e da entrega do troféu Redentor (fala-se em “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” e em “A Febre” como favoritos), o Festival do Rio 2019 assegurou para si uma joia chinesa: “The Wild Goose Lake”, de Diao Yinan. Sua última sessão no evento vai ser às 17h20, no Estação Net Gávea. O longa-metragem foi uma das sensações da seleção competitiva de Cannes. A força dessa produção se relaciona com um processo histórico de representação ligado às narrativas de gênero. No fim dos anos 1990, quando a ambiguidade voltou a ser assunto na ficção, por conta da nada feliz escolha de George W. Bush para concorrer à presidência dos EUA, o noir voltou a ser um filão explorado pelas telas, em parte por servir como crônica de uma morte anunciada: a morte da ética. Àquele momento, Cannes trouxe para seu Palais des Festivals o policial “LA Confindential”, de Curtis Hanson, que revelou uma penca de atores hoje respeitados, como Russel Crowe. Era 1997. Anos depois, em 2006, diante de um novo surto de inquietação nas políticas globais, Brian De Palma foi convidado para abrir Veneza com “Black Dhalia”, tributo a Huston, ao “Scarface” com Paul Muni, a lógicas ambíguas de mundo. Elas vão e voltam. Foi o que se viu, em maio, na Croisette (sempre ela, essa danada), na projeção The Wild Goose Lake.
Raras vezes a representação da violência em sagas sobre crime ganhou contornos plásticos tão virtuosos quanto o deste thriller chinês que esbanja ação ao narrar os esforços de uma mulher para entregar um criminoso em fuga para seus detratores e, com isso, libertar-se de suas dívidas. Yinan tem 22 anos de carreira. Ganhou notoriedade ao rodar “Black Coal, Thin Ice”, thriller igualmente ambíguo que lhe rendeu o Urso de Ouro berlinense.
Sua linha autoral se debruça sobre arlequin(a)s, servidore(a)s de dois ou mais amos, que são capazes de imolar suas convicções em prol de algum bem-estar. É o caso de Liu, vivida pela ótima Gwei Lun Mei, que estabelece uma relação de fidelidade, apaixonamento e traição com o criminoso Zenong (Hu Ge). A cabeça dele numa bandeja há de libertá-la. O preço vai ser pago na forma de uma ciranda de perigos filmados como uma ciranda de quiprocós que lembra a estética do John Woo de “O matador”. A fotografia de Dong Jinsong explora toda a miséria de um universo de excluídos que acreditam se dignificar no crime.
Ainda no Festival do Rio, às 16h45 desta quarta, rola “Sibyl”, de Justine Triet, que disputou a Palma de Ouro em Cannes. Virginie Efira, estrela do momento na França, tem uma atuação hilária, em meio a um áspero cenário de reconfigurações do feminino, na pele de uma psicanalista acossada por uma atriz que se torna sua paciente a fim de expurgar males de amor em meio a uma filmagem. Furacão de “O Azul é a Cor Mais Quente” (2013), Adèle Exarchopoulos interpreta essa analisanda em crise, obrigada a filmar com a cineasta (Sandra Hüller) que roubou seu namorado. Foi um dos melhores roteiros que passaram pelo Palais Des Festivals da Croisette este ano.

Maria Clara Escobar dirige “Desterro”, selecionado em concurso

Mudando de maratona cinéfila… de país… temos boas novas da Holanda para o Brasil. Coprodução com Portugal, “Mosquito”, dirigido por João Nuno Pinto, acaba de ser selecionado para o Big Screen Competition 2020, do Festival International de Cinema de Roterdã, que chega em sua 49a edição, de 22 de janeiro a 2 de fevereiro de 2020. O filme é uma produção da Leopardo Filmes em co-produção da Alfama Films Production, APM Produções, Mapiko Filmes e da brasileira Delicatessen Filmes, empresa que atua no mercado de audiovisual, e este ano passou a investir no cinema nacional. O filme acompanha Zacarias, um jovem português sedento por viver grandes aventuras heroicas durante a Primeira Guerra Mundial. Enviado para Moçambique, onde o conflito se desenrola longe dos olhares do mundo, o jovem soldado é deixado para trás pelo seu pelotão, partindo numa longa caminhada selva adentro, em busca dos seus camaradas, da guerra e dos seus sonhos de glória.

O festival holandês vai ter ainda a primeira ficção da documentarista Maria Clara Escobar (de “Os Dias Com Ele”): “Desterro”, que acaba de ser selecionada para o Tiger Awards Competition. O filme acompanha os passos de Laura (Carla Kinzo) e o que se passa dentro dela, as coisas não se encaixam. O mesmo desencaixe que está entre os corpos de Laura e Israel (Otto Jr.). “’Desterro’ é esse embate, essa falha. Penso que o próprio gesto de fazer um filme é sempre um pouco isso, se elaborar um desejo, pensar em imagens e nunca conseguir exatamente realizar aquilo, realizar outra coisa. Pensar o cinema e os modos de visibilidade a partir da ideia do descompasso é para mim a única forma de pensar o cinema”, diz Maria Clara Escobar.

Vai ter ainda “Animal Amarelo”, de Felipe Bragança, também em concurso, na Big Screen Competition, com direção de arte de Dina Salem Levy e produção de Marina Meliande e Luís Urbano.

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