Perfumado a lirismo, ‘Luas de Há Muito Sóis’ é um ensaio sobre desatenções

Perfumado a lirismo, ‘Luas de Há Muito Sóis’ é um ensaio sobre desatenções

Rodrigo Fonseca

11 de novembro de 2016 | 10h50

Marina Duarte, Natascha Falcão e Priscila Danny vivem três irmãs no entroncamento do Passado que aliena com o Presente que sufoca em

Marina Duarte, Natascha Falcão e Priscila Danny vivem três irmãs no entroncamento do Passado que aliena com o Presente que sufoca em “Luas de Há Muito Sóis”: peça em cartaz até 20/11 no CCBB-RJ

RODRIGO FONSECA
Confinadas num Tempo sem tempo, medido a rugas que escorrem de rostos outrora regidos pelo viço, Flornela, Evelina e Gilda, protagonistas da peça teatral Luas de Há Muito Sóis, em cartaz até 20 de novembro, às 20h, no CCBB-RJ, refugiam-se no Passado a garimpar o único alimento capaz de nutrir as feridas da alma: a memória. São irmãs essas três velhas senhoras, decalcadas de um conto do moçambicano Mia Couto que nos serve de memória para nossas desatenções com o tudo o que se harmoniza com cheiro de chuva e de folha verde, na febre do mormaço ou no arejamento da brisa. É um trio que perdeu à vista tudo aquilo o que nós perdemos à prestação: a chance de fruir das miudezas do mundo, enquanto se alimentam de um sonho romântico. Por isso, o deslizamento estabelecido pelo diretor Moncho Rodriguez entre a prosa de Mia e o palco de suas três enfeitçantes atrizes – Marina Duarte, Natascha Falcão e Priscila Danny – faz fronteira dentro de si mesmo, dividindo sua representação da vida entre dois hemisférios. De um lado está a velhice, enrugada a rancor e a consternação. Do outro, está o ontem e o antes de ontem, perfumado a hipóteses e carimbado com sangue de menstruação – representado num gestual de fios vermelhos e pétalas de rosa dos mais lúdicos do teatro brasileiro recente. Ambas essas metades se integram na mesma laranja: uma caverna cítrica onde o mito residente não é o de Platão e sim o do Querer. Três mulheres querem amar. Mas o Amor é uma palavra pra quem sabe dar valor. E valor demanda risco. E o risco, rabisco. Um rabisco chamado tentar e outro chamado enxergar – verbos que ali, nenhuma delas consegue conjugar na primeira do singular. Há uma música ao fundo, ganindo como se fosse vento nos galhos, composta por Narciso Fernandes, que embala a ladainha da trindade anciã e os assobios de perseverança delas em seus dias de primavera. Cada acorde chega acompanhado de uma frase digna de anotação, tipo “No pôr do sol do meu ninho, os pássaros tingem o mundo de carmim”, que fazem dos diálogos uma pequena aula de poesia explicada a nossos ouvidos ressacados por ruídos de Whatsapp. Estamos diante de um registro de teatralidade que tira carregos com a mesma potência com que o seminal show cênico Auê, da Barca dos Corações Partidos, maculou nossa inércia no início deste ano. São exercícios de resistência de um bicho chamado Lirismo, hoje ameaçado de extinção.
Não perde essa peça não.