Pepitas de ouro da 45ª Mostra de SP

Pepitas de ouro da 45ª Mostra de SP

Rodrigo Fonseca

21 de outubro de 2021 | 14h01

Tilda Swinton defende a estética almodovariana em curta baseado em Jean Cocteau

Rodrigo Fonseca
Tem 265 razões para o Brasil se orgulhar da curadoria da Mostra de São Paulo na maratona que segue desta quinta até o dia 3 de novembro. Elenque entre essas razões um Almodóvar inédito (“A Voz Humana”, com Tilda Swinton); o ganhador da Palma de Ouro de 2021 (o genial “Titane”, de Julia Ducournau); e o filme que deu ao mestre sul-coreano Hong Sang-soo o prêmio de melhor direção na Berlinale 2020: “A Mulher Que Fugiu”. Do Brasil, vai ter uma penca de filme inédito, incluindo boas novas de Bárbara Paz (“Ato”), Laís Bodanzky (“A Viagem de Pedro”), Ana Maria Magalhães (“Já Que Ninguém Me Tira Pra Dançar”) e José Eduardo Belmonte (“As Verdades”) além de um dos destaques da Quinzena dos Realizadores de Cannes: “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira. O P de Pop preparou aqui uma seleção do que há de urgente para conferir no evento, que se estruturou parte presencial, parte online. O www.mostra.org traz a programação.

Christian Malheiros é enredado por Rodrigo Santoro num processo de escravidão na SP de hoje em “7 Prisioneiros”

‘O PAI DA RITA’, de Joel Zito Araújo (Brasil): Wilson Rabelo e Ailton graça são dois bambas do samba de SP que enxergam na disputa pela paternidade de uma jovem (Jéssica Barbosa) um potencial veio de ruptura para a amizade que os une, nos acordes do samba. É o regresso de um dos mais contundentes documentaristas do Brasil, consagrado por “Meu Amigo Fela” (2019), aos códigos da ficção.
‘LISTEN’, de Ana Rocha de Sousa (Portugal – Reino Unido): Agraciado com 22 láureas internacionais desde o Festival de Veneza de 2020, quando ganhou o Prêmio do Júri da seção Orizzonti e o troféu Luigi De Laurentiis (de melhor filme de estreia), esse drama social reflete na ficção toda a força do cinema social português – um cinema ainda pouco conhecido entre nós. Na trama, um casal português, Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), tenta pagar as contas de uma vida em Londres, para onde foram atrás de mais e melhores oportunidades de emprego. Mas tudo dá errado para eles e seus três filhos, ameaçando uma intervenção judicial que os separe.
‘BRIGHTON 4TH’, de Levan Koguashvili (Geórgia – EUA): Uma das sensações do Festival de Tribeca, de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro e melhor ator (Levan Tedaishvili). Na trama, um campeão de luta livre, hoje grisalho, tem de viajar até os Estados Unidos, pra salvar seu filho, que abriga georgianos ilegais e tem uma dívida com a máfia.
‘7 PRISIONEIROS’, de Alexandre Moratto (Brasil): Rodrigo Santoro vive um momento de apogeu em sua evolução como ator nesta denúncia sobre o trabalho escravo no Brasil contemporâneo, que faz de um ferro-velho de São Paulo um microcosmos para a submissão. Santoro é Luca, o gerente desse espaço para onde vão jovens cheios de sonhos de prosperidade, como Mateus (Christian Malheiros), um alvo dessa máquina de moer esperanças.

‘A VINGANÇA É MINHA, TODOS OS OUTROS PAGAM EM DINHEIRO’, o ganhador do Leopardo de Ouro de 2021

‘LINGUI’, de Mahamat-Saleh Haroun (Chade): Num delicado estudo de alteridades, o diretor chadiano laureado em Cannes, em 2010, com “O Homem Que Grita”, discute maternidade, fé e tradição ao acompanhar o drama de uma mãe solteira muçulmana cuja filha adolescente resolve fazer um aborto. A câmera de Haroun vasculha vetores de pobreza que oprimem suas personagens.
‘O CIRCO VOLTOU’, de Paulo Caldas (Brasil): Qualquer filme do realizador de “Deserto Feliz” (2007) dá um nó nas convenções narrativas do realismo, transbordando poesia. Aqui, ele se reporta aos anos 30 do século passado, quando um casal de jovens de Major Isidoro, no sertão alagoano, encantou-se com a passagem de um circo pela região. Segundo José Wilson, ambos eram indígenas Xucurus-cariris originários de Palmeira dos Índios. Ao ver a caravana, o casal teria decidido montar sua própria companhia circense, batizada de Brasil Lux. Quase 90 anos depois vemos José Wilson à frente do Circo Spadoni e da Escola de Circo Picadeiro, mantendo essa longa tradição das famílias circenses viva e forte.
‘O PERFEITO DAVID’, de Felipe Gómez Aparicio (Argentina): Publicitário de sucesso em terras hermanas, Aparicio estreia em longas-metragens explorando a psiquê de um rapaz, o David do título (vivido por Maurido Di Yorio), que é obcecado em tonificar seu corpo até o limite da perfeição, num rígido regime de fisiculturismo. É maromba todo dia. É suor aos litros. Tudo fica mais complexo quando sua mãe, Juana (Umbra Colombo), entra em cena, revelando aspectos sinistros do cotidiano do jovem. Artista plástica, ela molda suas esculturas a partir dos músculos do filho.
‘O LEOPARDO DAS NEVES’, de Marie Amiguet (França): No alto do planalto tibetano, entre vales inexplorados e inacessíveis, encontra-se um dos últimos santuários do mundo selvagem, onde vive uma fauna extraordinária e desconhecida. Vincent Munier, renomado fotógrafo da vida selvagem e o aventureiro e romancista Sylvain Tesson exploraram por várias semanas esse local em busca desses animais únicos e tentarão localizar um dos felinos mais raros e difíceis de se registrar.
‘ZIRALDO – ERA UMA VEZ UM MENINO…’, de Fabrizia Pinto (Brasil): Um retrato afetivo de um dos pilares das artes gráficas nacionais construído a partir de depoimentos concedidos por ele ao longo de mais de 40 anos, pincelados por referências à sua produção quadrinística.
‘ESPÍRITO SAGRADO’, de Chema García Ibarra (Espanha): Laureado com uma menção honrosa em Locarno, este exótico estudo sobre o fascínio com o espaço entorpece nossa percepção, no limiar da comédia rascante, ao falar sobre um conclave de ufólogos em uma cidadezinhas nos confins da Península Ibérica onde o sumiço de uma menina revela um sinistro segredo.
‘CAMILA SAIRÁ ESTA NOITE’, de Inés Barrionuevo (Argentina): A diretora de “Julia y el Zorro” (2018) comoveu plateias no Festival de San Sebastián, na Espanha, com este “Os Incompreendidos” feminino argentino, seguindo os passos da educação sentimental de uma adolescente, vivida por Nina Dziembtowski, às voltas com uma série de lutas de afirmação.
‘A VINGANÇA É MINHA, TODOS OS OUTROS PAGAM EM DINHEIRO’, de Edwin (Indonésia): O ganhador do Leopardo de Ouro de Locarno celebra o legado dos filmes de artes marciais asiáticos dos anos 1970 e 80 com uma história de amor improvável entre um matador de aluguel que luta contra a impotência sexual e uma jovem lutadora cheia de desejo.
‘BOB CUSPE – NÓS NÃO GOSTAMOS DE GENTE’, de César Cabral (Brasil): Um mergulho na cabeça de Arnaldo Angeli Filho por meio de seus cartuns, de sua visão sem plumas do Brasil e de seu desapego, com Milhem Cortaz soltando farpas e saliva na voz do punk da periferia do título deste longa animado, laureado com o Prêmio Contrechamp do Festival de Annecy.

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