Penélope Cruz aquece a Berlinale e o mundo do melodrama

Penélope Cruz aquece a Berlinale e o mundo do melodrama

Rodrigo Fonseca

08 de fevereiro de 2017 | 17h13

“La Reina de España” põe Penélope Cruz de frente com a ditadura de Franco

RODRIGO FONSECA
Escalada para filmar uma comédia de humor negro com Todd Solondz (Love Child), um drama ainda sem título do iraniano Asghar Farhadi e uma participação ao lado de seu amigo Johnny Depp em Assassinato no Expresso do Oriente, de Kenneth Brannagh, a espanhola Penélope Cruz terá um 2017 quente pela frente, cuja primeira fervura será dada no dia 13, no 67º Festival de Berlim, onde ela estrela La Reina de España. Sua nova parceria com seu conterrâneo Fernando Trueba põe a morena na pele de uma estrela de cinema de um quilate pesado a ouro obrigada a conviver com o ditador Francisco Franco (1892-1975), no auge da ditadura em seu país. Estão no elenco Mandy Patinkin, Cary Elwes e Chino Darín. A produção está fora de concurso no evento, que inaugura sua competição nesta quinta, com Django, de Etienne Comar.

 

“Ma Ma”, de Julio Medem: só em DVD

É alta a aposta do mercado alemão em La Reina de Espana, o que acabou por elevar a visibilidade do projeto anterior da atriz: o tocante Ma Ma, de Julio Medem, que não foi lançado comercialmente no Brasil, em salas de exibição, mas sai agora, no formato DVD, nas maiores lojas do gênero em solo nacional. Melhor achado autoral do menu estrangeiro do Festival do Rio 2016, por renovar as bases do melodrama, esta produção espanhola pilotada pelo realizador de Lúcia e o Sexo (2001), beneficia-se da fúria uterina de Penélope, que assina também como produtora.Numa atuação de mesmerizar, ela é uma professora desempregada às voltas com um câncer, com um novo amor (vivido pelo magnífico Luis Tosar, o José Mayer galego) e com uma gravidez inesperada.

Atriz assina longa de Medem também como produtora

Atriz assina longa de Medem também como produtora, renovando o melodrama

Ma Ma é o que se chama de metamelodrama, palavra mais associada a um outro tesouro audiovisual da Espanha, Pedro Almodóvar, e ao chinês Wong Kar-Wai. O verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feita pelo professor baiano José Carvalho (mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio de Janeiro e em São Paulo no curso Oficina Roteiraria [http://www.roteiraria.com.br/]). Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes (autor do seminal Culturas Narrativas Dominantes), Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que o realizador de Má Educação (2004) cria seu universo com base no tecido visual “vivo” criado pelo melodrama clássico e suas releituras modernos, de Douglas Sirk a Rainer Fassbinder. Medem faz o mesmo com a personagem de Penélope.

 

Falando sobre Berlinale, os títulos em disputa pelo Urso de Ouro de longa-metragem em 2017:

Ana, Mon Amour, de Calin Peter Netzer (Romênia)

On The Beach At Night Alone, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)

Beyus, de Andres Veiel (Alemanha) – documentário

Colo, de Teresa Villaverde (Portugal)

Django, de Etienne Comar (França)

The Dinner, de Oren Moverman (EUA)

Félicité, de Alain Gomis (Senegal)

Have a Nice Day, de Liu Jian (China) Desenho animado

Bright Nights, de Thomas Arslan (Alemanha)

Joaquim, de Marcelo Gomes (Brasil)

Mr. Long, de Sabu (Japão)

Una Mujer Fantástica, de Sebastián Lélio (Chile)

The Party, de Sally Potter (Reino Unido)

Spoor, de Agnieska Holland (Polônia)

The Other Side of Hope, de Aki Kaurismäki (Finlândia)

Return to Montauk, de Volker Schlöndorff (Alemanha)

On Body and Soul, de Ildikó Enyedi (Hungria)

Wild Mouse, de Josef Hader (Áustria)

 

Existe uma vocação histórica no Festival de Berlim, desde sua inauguração, em 1951, com uma sessão de Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock, em servir de painel para expressões autorais do mundo inteiro, com lugar cativo para a América Latina, em especial para o Brasil. Pois este ano, a Berlinale é verde e amarela: desde 2008, ano da vitória de Tropa de Elite, não se via por lá uma esquadra brasileira tão ampla: 13 títulos. Até o momento, contando com Vazante, a participação brasileira – falando português – inclui nove longas, três curtas e mais a produção Brasil-Itália-França-EUA Call Me By Your Name, de Lucca Guadagnino. Na competição oficial concorre Joaquim, de Marcelo Gomes, sobre os bastidores da Inconfidência Mineira. Na seção Panorama, entraram Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky; Pendular, de Julia Murat; e Vazante, de Daniela Thomas. Na mostra Geração, estão Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira; As Duas Irenes, de Fábio Meira; e Não Devore Meu Coração, de Felipe Bragança, com Cauã Reymond de espingarda na mão. Para o Fórum, foi o bangue-bangue gaúcho Rifle, de Davi Pretto. E João Moreira Salles projetará o seu aguardado No Intenso Agora – sobre uma viagem de sua mãe pela Europa e pela China, em 1968 – por lá no Panorama Dokumente, encerrando um jejum de dez anos sem lançar filmes depois da consagração de Santiago. Entraram ainda no festival os curtas Estás Vendo Coisas, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (este na briga pelo Urso de Ouro); Em Busca da Terra Sem Males, de Anna Azevedo (que ficou na mostra Generation KPlus; e a animação Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica, de Sávio Leite, do Panorama.