Pedro Monteiro marca um gol felliniano no teatro

Pedro Monteiro marca um gol felliniano no teatro

Rodrigo Fonseca

08 de setembro de 2021 | 09h13

Pedro Monteiro tem uma comovente atuação na peça “Pão e Circo”, em cartaz no Sympla

Rodrigo Fonseca
Amarcord teatral de uma Madureira mais próxima de Fellini do que das feridas sociológicas do subúrbio carioca, a peça “Pão e Circo”, um ímã de lágrimas, em cartaz virtual no Sympla, virou um gramado para Pedro Monteiro marcar gols, no placar das artes cênicas, a cada uma de suas apresentações online. Se você riu, nos cinemas, com a comédia “Vendo ou Alugo” (2013), de Betse de Paula, certamente se lembra o desempenho dele, laureado com o troféu de melhor ator coadjuvante no Cine PE. E, recentemente, ele brilhou em “Noites de Alface”, de Zeca Ferreira, no papel de um carteiro envolvido num mistério detetivesco. Ele fez ainda “O Sonho de Rui”, brincando de Chuck Norris num projeto produzido por Cavi Borges sobre a busca por sonhos profissionais. Sonho é uma palavra que gravita sempre pela produção autoral de Pedro, que, aos 41 anos, tem no currículo de invenções 14 peças de teatro, 8 filmes, 3 séries e uma bebezinha chamada Pilar.

Com passagens pelo Tablado, sendo formado pela escola de interpretação da UniverCidade, esse carioca do Bairro de Fátima – cria da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro – assina o texto de “Pão e Circo” em parceria com Leonardo Bruno. A direção é de Isaac Bernat, que arranca uma comovente interação entre os personagens vividos por Gabriela Estevão, Henrique Eduardo e Osvaldo Mil. Na trama, com iluminação de Aurélio de Simoni, Pedro vive Edu é um goleiro carioca, nascido e criado em Madureira, e titular do time Capela Futebol Clube. A história começa durante um jogo de decisão de campeonato e vai intercalar cenas da partida com outras que mostram a relação de um garoto e seu pai, um jogador de futebol. Ao longo da pelada contra os quiprocós da vida, um embate familiar vai mudar o rumo dos personagens. Quem assina a delicada direção musical dessa história é Charles Kahn. A parcela de vídeo do espetáculo é do já citado Cavi. Destaque para a cenografia de Doris Rollemberg e Maria Clara Almeida que, em sinergia com os figurinos de Bruna Falcão e Raphael Elias, ressaltam a natureza ultrarromântica daquele cantinho de periferia. Aliás, é um ultrarromantismo felliniano.

O elenco da peça escrita por Monteiro e Leonardo Bruno -@fotos de Beto Roma

Qual é a Madureira que cabe no coração do Edu e como esse bairro mítico lhe serve de morada, mas também de prisão – como o amor paterno?
Pedro Monteiro:
É a Madureira cantada por Arlindo Cruz, aquela dançada embaixo do Viaduto Negrão de Lima. A Madureira que tem a Portela e o Império Serrano. A morada do meu personagem é rica de referências do passado, de referências da infância. E é nesse lugar, nessa encruzilhada, amarrado como tênis velho no fio do poste, que o amor de Edu e Julio foi construído. Leonardo Bruno, autor dessa peça, conseguiu imprimir isso no texto.
Você faz uma ponta luminosa no recente longa-metragem “Noites de Alface”, reforçando uma andança pelo cinema que vem lá do “Vendo ao Alugo”. O que o cinema representa de mais sólido nessa tua trajetória como ator, muito marcada pelo teatro?
Pedro Monteiro:
“Pão e Circo” é a minha quinta idealização no teatro. E nesse projeto, por conta da pandemia, fomos direcionados pra algo virtual. Algo sem público na nossa frente. E é nesse desafio – porque foi um desafio realizar isso só ensaiando via computador – eu pude, sim, trazer a experiência dos trabalhos de cinema e TV pra realização teatral. Danço feliz com a marca do teatro na minha trajetória. E trago em paralelo o cinema como um convite para um mergulho pra dentro de mim. E quanto mais sincero for esse mergulho, mais e melhor a câmera percebe.
Que lugar de libertação e de criação o filme “O Sonho de Rui” trouxe pra você?
Pedro Monteiro:
Que por mais que você não consiga realizar como deseja, realize como é possível. “Sonho de Rui” é algo que desejava fazer desde a minha estreia autoral, em “Os Ruivos”, espetáculo teatral de 2009. A peça foi um sucesso. Correu 56 municípios, 10 estados. Mais de 200 apresentações. O humor é algo bem próximo de mim. Mas não é nele que me norteio pra realizar algo. É o famoso “aquilo que o artista quer contar”. Criei, libertei-me e já estou apaixonado pras próximas iniciativas que farei em 2022.

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