Paulo César Pinheiro encanta o É Tudo Verdade

Paulo César Pinheiro encanta o É Tudo Verdade

Rodrigo Fonseca

11 de abril de 2021 | 10h00

RODRIGO FONSECA
Coisa mais linda desse É Tudo Verdade é “Paulo César Pinheiro – Letra e Alma”, um filme de se suspirar. Com sessão marcada para este domingo, às 21h, via Looke, o filmaço de Andrea Prates e Cleisson Vidal, periga ser o filme mais tocante de toda a maratona documental de 2021, pelo que se viu até agora, impondo-se pela poesia que encobre a simplicidade. Que roteiro doce e preciso, vitaminado por uma dinâmica inventiva no emprego de imagens de arquivo. Compositor prolífico, PCPinheiro é um dos poetas mais celebrados da música brasileira, autor de “Canto das Três Raças” e “O Poder da Criação”, entre outros clássicos do samba, do samba-enredo e da canção. Parceiro de Baden Powell, Tom Jobim e Edu Lobo, foi gravado por Elis Regina, Clara Nunes e Maria Bethânia. Sentado em seu sofá, sob uma delicada fotografia em preto e branco, ele reflete sobre a natureza de suas canções, relembra o passado e revê a carpintaria poética canções de protesto contra a ditadura militar. Num clímax do longa, ele canta uma de suas avassaladoras peripécias pelas veredas do verso:
“Ninguém faz mais jura de amor no Juramento/
Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus/
Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres/
E a vida é um inferno na Cidade de Deus.

Não sou do tempo das armas/
Por isso ainda prefiro/
Ouvir um verso de samba/
Do que escutar som de tiro.

Pela poesia dos nomes de favela/
A vida por lá já foi mais bela/
Já foi bem melhor de se morar/
Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda/
Ou lá na favela a vida muda/
Ou todos os nomes vão mudar.”

Igualmente “simples” (ou seja, de um lirismo travestido de precisão) são os nove minutos de “João Por Inez”, um dos filmes de maior beleza da obra investigativa de Bebeto Abrantes. Nele, Inez Cabral, autora do deslumbrante “O Que Vem Do Acaso” (2018), retrata o pai, o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no ano do centenário de nascimento dele, sob o véu da saudade e do alumbramento. Renovador da linguagem poética brasileira, o autor de “Cão sem Plumas” foi diplomata e embaixador do Brasil na Europa e na África, mantendo-se profundamente ligado a seu Recife natal.

O que mais curtir deste ETV:
EDNA, de Eryk Rocha: Tudo indica que o realizador de “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016) tenha feito seu filme mais lúdico, apoiado numa estonteante fotografia em PB e embalado em canção de Paulo Sérgio (“Máquinas Humanas”). Apoiado numa narrativa híbrida, nas raias da rodovia Transbrasliana, o cineasta transita entre o real e o imaginário, por guerrilhas, desaparecimentos e desmatamentos, com foco no diário de mulher. A fotografia em PB só pontua a dimensão existencial de um realizador em fase de apogeu criativo, que, em paralelo ao ETV, concorre também no Visions du Réel, na França.
MLK/FBI, de Sam Pollard: Sensação do último Festival de Toronto (TIFF), essa tensa produção americana revela a extensão da vigilância e da intimidação dos agentes federais ao reverendo Martin Luther King, baseado em arquivos descobertos e/ou tornados públicos recentemente.
YÃOKWA: IMAGEM E MEMÓRIA, de Rita e Vincent Carelli: Filha e pai se unem na direção para dar voz a rituais dos povos originários do Brasil. O Yaõkwa é um cerimonial dos Enawenê-nawê do norte de Mato Grosso, feito para alimentar e apaziguar os espíritos. Com a morte de velhos mestres, extensos registros feitos pelo projeto Vídeo nas Aldeias ajudaram a resgatar cantos esquecidos.

Ziembinski e Nelson Rodrigues em “Zimba”

GLÓRIA À RAINHA (“Glory to the Queen”), de Tatia Skhirtladze: O clima de “O Gambito da Rainha”, fenômeno da Netflix, se espalha por esta investigação sobre a Guerra Fria, quando quatro enxadristas lendárias da Geórgia revolucionam o xadrez feminino no mundo inteiro. É uma investigação sobre sororidade e estrategismo.
ZIMBA, de Joel Pizzini: Um dos exercícios de montagem mais lúdicos do cinema brasileiro recente, com toda a elegância da editora Idê Lacreta potencializada pela edição de som e mixagem de Ricardo Reis Chuí e Miriam Biderman. Famoso por seu cinema etnopoético, vide “500 Almas” (2004), Pizzini faz agora um estudo do teatro brasileiro a partir da marca de modernidade impressa pelo ator e encenador de origem polonesa Zbigniew Ziembinski (1908-1978), em sua luta para renovar os palcos.
SEXO E REVOLUÇÃO (“Sexo y Revolución”), de Ernesto Ardito: Um libelo contra a homofobia, o filme viaja no tempo para a América do Sul do começo dos anos 1970, quando homossexuais argentinos eram presos e torturados pela polícia e por instituições para doentes mentais. Um grupo de gays decidiu lutar, mas os partidos de esquerda não estavam prontos para eles.
ALVORADA, de Anna Muylaert e Lô Politi: O longa mais esperado do festival registra o dia a dia da ex-presidente Dilma Rousseff antes do Impeachment, surpreendendo pela maneira habilidade de esgrimar o personalismo narrativo, deixando sua protagonista expor toda a inteligência que fez dela uma estadista de coragem em um país assolado pelo machismo. É um estudo sobre sentimentos, sobre a vivência do Poder, sobre a arte de aguardar.
PAUL SINGER, UMA UTOPIA MILITANTE, de Ugo Giorgetti: Realizador de joias como “Festa” (1989) e “O Príncipe” (2002), o cineasta paulistano regressa agora falando sobre o autor de “Ensaios sobre Economia Solidária”, que foi um iluminista na vida intelectual de São Paulo nos últimos setenta anos. O longa narra sua trajetória da chegada ao Brasil, em 1940, escapando da Segunda Guerra Mundial, a 2016, na liderança de movimentos econômicos. O roteiro preciso valoriza não apenas as reflexões sociológicas de Singer como o lugar estratégico de São Paulo como um caleidoscópio de Brasil.
CHARLIE CHAPLIN, O GÊNIO DA LIBERDADE (“Charlie Chaplin, le génie de la liberté”), de Yves Jeuland: Um tocante reencontro do cinema com Carlitos a partir de suas lutas pelo direito à livre expressão em meio ao moralismo político e comportamental de Hollywood.
HOMENAGEM A RUY GUERRA: Para antecipar as comemorações dos 90 anos do realizador de “Os Fuzis” (Prêmio do Júri em Berlim, em 1964), o ETV separou duas pérolas de sua passagem por Moçambique: “Os Comprometidos – Actas de um processo de descolonização” (1984) e “Mueda: Memória e Massacre” (1979/80).

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