Paulinho Gogó, o Barão Munchausen do subúrbio

Paulinho Gogó, o Barão Munchausen do subúrbio

Rodrigo Fonseca

29 de novembro de 2020 | 11h08

Roberto Santucci dirige Maurício Manfrini e Carlos Alberto de Nóbrega em “No Gogó do Paulinho”

Rodrigo Fonseca
Catapultado ao show do milhão da História do audiovisual do Brasil com “De Pernas Pro Ar” (2010), Roberto Santucci passou os últimos dez anos pavimentando uma estrada pelas veredas da direção que deveria ser estudada (com respeito) por todo analista de mercado audiovisual das Américas mas, também, pela ala da crítica preocupada com a questão da representação no discurso cinematográfico. No futuro – quem sabe um bem próximo -, quem quiser (ou precisar) entender o que foi o processo de subjetivação das classes emergentes dos anos 2000 (pessoas dos andares C e D da pirâmide da extratificação econômica que avançaram casas no tabuleiro do consumo) vai encontrar um afetivo retrato dessa fatia da população brasileira no (divertido) cinema feito por ele. A franquia “Até Que a Sorte Nos Separe” (2012-2015) é seu acerto maior nessa cartografia populacional, coroada pela usina atômica chamada Leandro Hassum, com quem Santucci acaba de filmar “Tudo Bem No Natal Que Vem”, a ser lançado nesta quinta, na Netflix. Num estudo das estratégias do cineasta como narrador, “Loucas Pra Casar” (2015) – um sucesso que confirma sua assinatura autoral temática – costumava vir em primeiro lugar no seu ranking de melhor lapidação formal. O uso do pretérito, do “costumava”, passou a ser necessário, nessa avaliação de sua trajetória, depois que “No Gogó do Paulinho” caiu na grade da Amazon Prime. Parece que “Loucas…” encontrou um rival à sua altura, pois seu mais recente lançamento é uma comediaça, daquelas de rachar o bico. É um “Forrest Gump” tropical, com Maurício Manfrini faiscando de precisão nas piadas de seu alter ego: Paulinho Gogó, um Pedro Malasartes de banco de praça. E tem um timming de montagem (mérito de Eduardo Hartung) infalível, retrocedendo e avançando no Tempo conforme revive a paixão de Gogó por Juju (Cacau Protásio, impagável). Entre os lançamentos nacionais deste ano de pandemia, que obrigou o longa-metragem a ir para a streaminguesfera, sem passar pelo circuito exibidor, é difícil encontrar algo tão engraçado e tão sintonizado com a tradição das crônicas humorísticas feitas entre 1934 e 1961 na era de ouro da chanchada. Paulo Cursino, pena habitual dos roteiros filmados por Santucci (ele e Marcelo Saback são seus roteiristas essenciais), consegue trazer elementos do humor “Saturday Night Live”, à la Steve Martin, e uni-lo a uma cartografia das vivências brasileiras, desenhando Gogó como um Zé Trindade dos anos 2010.
“A generosidade e elegância do Maurício no set de filmagem meu deu muita liberdade para tentar buscar expandir ao máximo o lado cinematográfico. É lógico que eu também trabalhei com um tipo de roteiro que eu nunca havia experimentado”, explica Santucci, para justificar a força de uma comédia que transpira sua maturidade como realizador num filão popular. “No roteiro, longas narrativas permeavam quase todas as cenas. Isso abriu espaço para a câmera fazer longos movimentos e os planos serem mais elaborados. Investi no lado ‘história de pescador’, narrando coisas completamente impossíveis que, aos olhos do Paulinho Gogó, tornam-se realidades. Maurício Manfrini é amigo do Paulo Cursino de longa data e procurou a gente para fazer o filme do Paulinho Gogó anos atrás. Primeiro testamos ele no longa ‘Os Farofeiros’, enquanto desenvolvíamos um roteiro para cinema”.

É difícil segurar o marejar nos olhos quando Carlos Alberto de Nóbrega entra em cena, para bater bola com Manfrini. É um encontro que passa em revista uma bem-sucedida mecânica de riso na TV. Mas não se trata apenas do carinho que Nóbrega merece: trata-se de uma estrutura de roteiro sólida, capaz de acoplar situações aparentemente soltas numa grande colcha de retalhos. O que Cursino, Santucci e Manfrini fizeram foi um “As Aventuras do Barão Munchausen”, totalmente antenado com o legado de Gottfried August Bürger (1747–1794), o criador do boquirroto cascateiro europeu, e plenamente regado de brasilidade. Sua presença numa plataforma como a Amazon Prime é um sinal dos tempos para a comédia nacional. Nada mais “na ordem do dia” do que vermos um Munchausen suburbano fabulando nos streamings. Que a História reconheça essa sintonia e valorize o quanto Santucci contribuiu para tornar a produção nacional sustentável, levando muita gente a conhecer (ou reconhecer) o quanto o cinema é fundamental para retratar um povo, para além de “etnografices”.

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