‘Pátria’ inflama San Sebastián e a HBO

‘Pátria’ inflama San Sebastián e a HBO

Rodrigo Fonseca

25 de setembro de 2020 | 20h33

Minissérie espanhola estreia domingo em 60 países após incendiar o Festival de San Sebastián, que termina neste sábado

RODRIGO FONSECA
Falta um dia pra 68. (e notável) edição do Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, chegar ao fim, depois de ter consagrado filmes memoráveis (“Druk”, da Dinamarca, a se chamar “Another Round” mundo afora, é o melhor), dado a Viggo Mortensen seu prêmio honorário anual e acolhido a estreia mundial de séries com fôlego pra revigorar a TV ou as plataformas de streaming politicamente. É esse o caso de “Pátria”, que a HBO lança no domingo, em uns 60 países, entre eles o Brasil. Poucas séries recentes da casa de “Game of Thrones” têm o requinte plástico à altura dessa minissérie espanhola, ligada a traumas ibéricos acerca do terrorismo.

“Esta não é uma dramaturgia para sanar problemas, mas para reviver fatos e, a partir deles, criar uma ficção”, diz Aitor Gabilondo, que assina o projeto, concebido a partir do romance (best-seller) homônimo de Fernando Aramburu, também vertido em forma de HQs.

Com uma direção de arte exuberante, “Pátria” virou um dos mais concorridos lançamentos de San Sebastián em 2020. Apoiado em uma pesquisa de época monumental, seu enredo se passa ao longo de três décadas em Euskadi, no País Basco. Por meio de suas protagonistas – chefas de duas famílias divididas pelas consequências do terrorismo –, sua trama mostra como as pessoas comuns vivem no contexto de um conflito que envolve a sanha separatista do Movimento de Libertação Basca, o ETA (Euskadi Ta Askatasuna), a partir de sua fundação, em 1959. Miren (Ane Gabarian) e Bittori (Elena Irureta), atingidas pelos conflitos do ETA de formas distintas, é que conduzem o nosso mergulho num turbilhão histórico de transformação de uma Espanha ainda marcada pelo franquismo. A direção dessa recriação de fatos históricos é de Felix Viscarret e Óscar Pedraza.

“Não precisamos preparar atrizes com os bastidores da História, pois escolhemos talentos que têm a vivência do passado basco e sabem o que as personagens sentem”, diz Aitor em resposta ao P de Pop.

Em meio à série de filmes de autor do festival, “Pátria”, com seus 480 minutos (a serem fatiados semanalmente na TV), deixou uma horda de críticos boquiaberta pelo requinte de sua fotografia e de sua edição. “A muitas imagens do conflito. A ideia era tentarmos ser o mais realista possível”, disse Aitor.

Mads Mikkelsen estrela “Druk” (“Another Round”), o favorito à Concha de Ouro

Eis um um possível palmarês pra San Sebastián:
Concha de Ouro: “Another Round” (“Druk”), de Thomas Vinterberg
Prêmio do Júri: “Crock of Gold”, de Julien Temple
Direção: Dea Kulumbegashvili, por “Beginning”
Atriz: Romina Escobar, por “Nosotros Nunca Moriremos”
Ator: Stanley Tucci e Colin Firth, por “Supernova”
Roteiro: Naomi Kawase e Izumi Takahashi, por “True Mothers”
Fotografia: Arseni Khachaturan, por “Beginning”

Pode haver um prêmio (e seria merecido) para o Brasil pelo tenso “Casa de Antiguidades”, com Antonio Pitanga, sob a direção de João Paulo Miranda Maria. Numa narrativa pontuada pelo Mistério, Pitanga dá vida a Cristovam, um goiano que leva uma rotina como empregado de um laticínio no Sul do país, entre imigrantes de origem austríaca. Lá, o racismo assola seus passos, de modo cada vez mais opressor, até que um incidente envolvendo uma criança (ou seria um felino) vai despertar seu lado animal. Uma jovem que ele encontrar num bar, Jenifer (Ana Flávia Cavalcanti, em impecável atuação) libera ainda mais seu lado selvagem, o que culmina numa catarse sociológica que deixou San Sebastián sem palavras.

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