‘Pátria’ de invenção e do ‘Titanic galego’

‘Pátria’ de invenção e do ‘Titanic galego’

Rodrigo Fonseca

21 de setembro de 2020 | 20h10

“La Isla de Las Mentiras”: reconstituição de naufrágio de 1921

RODRIGO FONSECA
Defendido na disputa pela Concha de Ouro de 2020 pelo feérico “Akelarre”, sobre caça às bruxas, o audiovisual espanhol encontra no Festival de San Sebastián a vitrine mais escancarada para seus instintos de invenção, incluindo no setor de séries, no qual “Pátria”, da HBO, foi “o” acontecimento dessa maratona cinéfila. Escrita por Aitor Gabilondo a partir de memórias do Movimento de Libertação Basca, o ETA (Euskadi Ta Askatasuna), reunidas em livro homônimo de Fernando Aramburu, a minissérie estreia na TV neste domingo (incluindo a HBO Brasil e o HBO Go, online), narrando a saga de duas mulheres às voltas com os conflitos separatistas de seu país. Mas, fora do escopo da televisão e da disputa pelas láureas oficiais, uma mostra chama Mande in Spain, tida como menina dos olhos para San Sebastián, anda trazendo a prata mais luminosa da casa para a cidade. É o caso de “La Isla De Las Mentiras”, da diretora Paula Cons Varela. O longa revê o caso do “Titanic Galego”, ocorrido em 1921: na ocasião, um navio que partia para Buenos Aires, com 260 passageiros, naufragou nas imediações da Galícia. Três mulheres da vila conseguiram salvar 48 náufragos, ganhando status de heroínas. Mas há um rumor de que o tal salvamento tenha um lado B. Lendas falam de um golpe dos moradores, que usavam fogueiras e tochas para similar a iluminação de um farol e confundir os tripulantes das embarcações. O objetivo: saque. No longa, Paula aborda essa hipótese a partir da figura de um jornalista argentino, vivido pelo aclamado Dario Grandinetti, que tenta entrevistar o trio de salvadoras.

“Ele é uma espécie de marciano para o povo da vila, assim como os galegos soam como ETs para ele. Essa figura do repórter me ajuda a criar um bastidor ficcional para uma trama calcada em fatos reais”, disse Paula ao P de Pop num bate-papo com a plateia ao fim da projeção. “Meu fotógrafo, Autor Mantxola, sugeriu que operassemos de câmera na mão, a fim de similar uma abordagem documental. Mas eu gosto de enquadramentos estetizados. Preferi construir os quadros numa fotografia mais clássica, na qual a amplitude da paisagem marinha desse um tom de claustrofobia”.

“Pátria”: domingo na HBO

Concorrida dia a dia, a maratona cinéfila espanhola vai até 26 de setembro, quando o júri presidido pelo diretor italiano Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”) anuncia os vencedores. Até agora, o favorito à Concha de Ouro de 2020 parece ser “Another Round” (“Druk”), do dinamarquês Thomas Vinterberg. Nele, o realizador retoma sua parceria com o astro de seu brilhante “A Caça” (2012) – Mads Mikkelsen – para falar de um professor de História que refaz sua vida ao entrar num experimento etílico e encher a cara todo dia. Nesta segunda, o arrastado drama japonês “Any Crybabies Around?”, de Takuma Sato, impressionou a crítica com o requinte de sua fotografia. Nele, Takuma narra a luta de um pai bem jovem – e muito irresponsável – para se refazer dos erros do passado.

Nesta terça, a corrida atrás da Concha dourada de Donostia (nome de San Sebastián em Euskara, o dialeto local) pode mudar com a exibição de “Supernova”, drama inglês de Harry Macqueen, com o que promete ser uma devastadora atuação em duo de Colin Firth e Stanley Tucci. Eles vivem um casal que, após 20 anos de amor, podem ser separados não pela falta de paixão, mas por uma doença.

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