‘Partida’ chega ao streaming para ficar

‘Partida’ chega ao streaming para ficar

Rodrigo Fonseca

26 de maio de 2020 | 13h38

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
No ar cotidianamente na telinha na reprise (compacta) da novela “Novo Mundo”, no papel de Peter, Caco Cicoler tomou os maiores festivais brasileiros de 2019 de assalto com um novo processo de construção de narrativa cinematográfia no qual assina a direção: “Partida”. Uma das atrações do Festival de Málaga, na Espanha, a produção vai ser exibida em streaming a partir de 18 de junho: inicialmente vai entrar no Now, Vivo Play, Oi, Petra Belas Artes, Filme Filme e Looke, indo, na sequência, para o iTunes e o Google Play. Sua passagem pelo Festival de Aruanda, na Paraíba, foi coalhada de láureas, incluindo o troféu de melhor montagem (para Tiago Marinho) e o Prêmio Especial do Júri.
Há um poema de Brecht que vestiria de Sol o documentário “Partida”, um astro de luz própria graças à inquietação e ao espírito de coletividade de seu diretor, o ator Caco Ciocler. A poesia: “Para ganhar o pão,/ cada manhã/ vou ao mercado onde se compram mentiras./ Cheio de esperança / busco meu lugar entre os vendedores”. Sem obrigatoriedade alguma de entregar à plateia a reação que se espera como resposta natural a seu título, ou seja, “chegada”, Ciocler dirigiu um jogral sobre ofícios e resiliências. Um jogral sobre aquilo que Brecht – alguém que, segundo o teórico Frederic Jameson, era um criador apaixonado por bons vinhos, bons queijos e bons atores – considerava ser a infraestrutura dos profissionais do Teatro. Ou seja: o dever de colocar a Mentira à prova, para, com isso, esfacelar o autoritarismo daquilo que chamamos Verdade. Seu mais recente longa-metragem como realizador (antes dele veio “Esse viver ninguém me tira”, de 2014, sobre Aracy Moebius de Carvalho, o Anjo de Hamburgo) é um road movie sobre o sentido crítico, trágico e redentor da palavra “encenação”. Nada seria mais compatível com esse substantivo do que a linguagem documental, formato narrativo calcado em dispositivos que pressupõem o desvelamento, o desapego das convenções fabulares, uma ou algumas formas de alumbramento da realidade. O conceito de “encenação” se aplica ao longa no momento em que sua “protagonista” (o eixo de humanidade dessa jornada de registro), a diretora e atriz Georgette Fadel, assume para si um devir candidata.

Estamos no fim de 2018, frente à chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, e Georgette resolve se tornar candidata, decidida a concorrer ao comando do Planalto em 2022. E, para se reencontrar com anseios políticos que, naquele momento, pareciam impossíveis, ela embarca em uma viagem de ônibus ao Uruguai, na utópica tentativa de passar a virada do ano com o ex-presidente Pepe Mujica, lenda viva de resistência moral e integridade ética. Mas ela não parte sozinha: companheiros de arte vão consigo e Ciocler junto, com sua câmera. Ainda nos primeiros minutos, esbarra em Léo, um empresário rico, com posições políticas polêmicas, mas que se tornará, quem diria, o principal parceiro de andança de Georgette. Uma andança que abriga muitos artistas, incluindo Caco. Todos, naquele Submarino Amarelo de quatro rodas, trafegam pelas estradas da dialética – a estrela bailarina de Brecht – em torno de certezas que se convertem em estopim de conflitos e em torno de dúvidas que se metamorfoseiam em sínteses. Sínteses de um Brasil que ainda pare de pé, seja à esquerda ou à direita. Georgette pondera com certa angústia de ter uma empregada em sua casa e se ver, de alguma forma, numa condição burguesa, de patroa. Há quem lhe questione: “Você é toda radical, mas não limpa sua própria provada”. Ao mesmo tempo, ela abre, com uma riqueza singular, um debate sobre a acomodação dos atores a uma condição de conforto e explica como o dinheiro vicia – “Se você se acostuma a viver com R$ 10 mil, não vai saber viver com R$ 3 mil. Se começa a ganhar R$ 40 mil, não vai mais saber viver com R$ 10 mil”. Há algo nessa conversa que evoca um antigo e primoroso trabalho de Ciocler: a peça “45 minutos” (2011), de Marcelo Pereira. Era um texto (precioso) sobre um ator, confinado a viver nos fundos de um teatro, que precisa entreter seus espectadores sem ter muito um porquê, apenas pela inércia da sobrevivência. A trupe de “Partida”, ao contrário do tal ator inerte, não encara o “sobreviver” como fado ou fardo, e sim como um ato celebrativo, um canto de bodes bravos, que gemem por Apolo mas são atendidos por Dionísio. Daí termos um filme que massacra convenções, brincando (de embaralhar) com as fronteiras entre o que é convicção e o que é uma interpretação, bem parecido com o exercício de Michel Gondry em “The We and The I” (2012), também ambientado em um ônibus. Só que o trocador aqui é a Utopia. Trocador (ou cobrador) é uma função que foi sucateada. Talvez a urgência de andar nessa lotação de Caco seja uma forma de impedir que a Esperança se sucateie nestes dias de eclipse.

p.s.: Roteirista de “Flores Raras” (2013) e de “2 Filhos de Francisco” (2005), Carolina Kotscho fala sobre o ofício de escrever filmes e séries na roda de conversas Gabinete Digital de Leitura, com link no GShow, pilotado pelo Dick Tracy da dramaturgia serializada, Gustavo Gontijo. Ele que é o ditongo, o tritongo e o pronome pessoal do caso reto do estudo de roteiros vai passar em revista toda a trajetória da autora responsável pela trama de “Não Pare Na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho” (2014). Carolina preside hoje a Associação Brasileira de Roteiristas.

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