‘Partida’: Caco Ciocler pilota lotação da utopia

‘Partida’: Caco Ciocler pilota lotação da utopia

Rodrigo Fonseca

13 de dezembro de 2019 | 11h35

Rodrigo Fonseca
Há um poema de Brecht que vestiria de Sol o documentário “Partida”, um astro de luz própria graças à inquietação e ao espírito de coletividade de seu diretor, o ator Caco Ciocler. A poesia: “Para ganhar o pão,/ cada manhã/ vou ao mercado onde se compram mentiras./ Cheio de esperança / busco meu lugar entre os vendedores”. Sem obrigatoriedade alguma de entregar à plateia a reação que se espera como resposta natural a seu título, ou seja, “chegada”, Ciocler dirigiu um jogral sobre ofícios e resiliências. Um jogral sobre aquilo que Brecht – alguém que, segundo o teórico Frederic Jameson, era um criador apaixonado por bons vinhos, bons queijos e bons atores – considerava ser a infraestrutura dos profissionais do Teatro. Ou seja: o dever de colocar a Mentira à prova, para, com isso, esfacelar o autoritarismo daquilo que chamamos Verdade. Com exibição no Festival do Rio 2019 agendada para este sábado, às 19h, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM), seu novo longa-metragem como realizador (antes dele veio “Esse viver ninguém me tira”, de 2014, sobre Aracy Moebius de Carvalho, o Anjo de Hamburgo) é um road movie sobre o sentido crítico, trágico e redentor da palavra “encenação”. Nada seria mais compatível com esse substantivo do que a linguagem documental, formato narrativo calcado em dispositivos que pressupõem o desvelamento, o desapego das convenções fabulares, uma ou algumas formas de alumbramento da realidade. O conceito de “encenação” se aplica ao longa no momento em que sua “protagonista” (o eixo de humanidade dessa jornada de registro), a diretora e atriz Georgette Fadel, assume para si um devir candidata. Estamos no fim de 2018, frente à chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, e Georgette resolve se tornar candidata, decidida a concorrer ao comando do Planalto em 2022. E, para se reencontrar com anseios políticos que, naquele momento, pareciam impossíveis, ela embarca em uma viagem de ônibus ao Uruguai, na utópica tentativa de passar a virada do ano com o ex-presidente Pepe Mujica, lenda viva de resistência moral e integridade ética. Mas ela não parte sozinha: companheiros de arte vão consigo (destaque para Julia Zakia e Manoela Rabinovitch na direção de fotografia) e Ciocler junto, com sua câmera. Ainda nos primeiros minutos, ela esbarra em Léo, um empresário rico, com posições políticas polêmicas, mas que se tornará, quem diria, o principal parceiro de andança de Georgette. Uma andança que abriga muitos artistas, incluindo Caco, laureado pelo longa no Fest Aruanda.

Todos, naquele Submarino Amarelo de quatro rodas, trafegam pelas estradas da dialética – a estrela bailarina de Brecht – em torno de certezas que se convertem em estopim de conflitos e em torno de dúvidas que se metamorfoseiam em sínteses. Sínteses de um Brasil que ainda pare de pé, seja à esquerda ou à direita. Georgette pondera com certa angústia de ter uma empregada em sua casa e se ver, de alguma forma, numa condição burguesa, de patroa. Há quem lhe questione: “Você é toda radical, mas não limpa sua própria provada”. Ao mesmo tempo, ela abre, com uma riqueza singular, um debate sobre a acomodação dos atores a uma condição de conforto e explica como o dinheiro vicia – “Se você se acostuma a viver com R$ 10 mil, não vai saber viver com R$ 3 mil. Se começa a ganhar R$ 40 mil, não vai mais saber viver com R$ 10 mil”. Há algo nessa conversa que evoca um antigo e primoroso trabalho de Ciocler: a peça “45 minutos” (2011), de Marcelo Pereira. Era um texto (precioso) sobre um ator, confinado a viver nos fundos de um teatro, que precisa entreter seus espectadores sem ter muito um porquê, apenas pela inércia da sobrevivência. A trupe de “Partida”, ao contrário do tal ator inerte, não encara o “sobreviver” como fado ou fardo, e sim como um ato celebrativo, um canto de bodes bravos, que gemem por Apolo mas são atendidos por Dionísio. Daí termos um filme que massacra convenções, brincando (de embaralhar) com as fronteiras entre o que é convicção e o que é uma interpretação, bem parecido com o exercício de Michel Gondry em “The We and The I” (2012), também ambientado em um ônibus. Só que o trocador aqui é a Utopia. Trocador (ou cobrador) é uma função que foi sucateada. Talvez a urgência de andar nessa lotação de Caco seja uma forma de impedir que a Esperança se sucateie. E é um presente para os olhos a maneira como a edição de Tiago Marinho preserva os quebra-molas do caminho sem, com isso, descarrilhar a leveza que guia o filme, como um farol. Um farol bonito como o olhar de Mujica e a fome de amanhã de Georgette.
Tem mais uma dose do longa nesta segunda, às 20h, no Estação NET Rio, e na terça, às 14h, no Instituto Moreira Salles (IMS).

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