Paris escala o pico da neblina de Sharunas Bartas

Paris escala o pico da neblina de Sharunas Bartas

Rodrigo Fonseca

24 de novembro de 2021 | 07h13

RODRIGO FONSECA
Mesmo deslumbrado com achados recentes de Cannes, recém-lançados comercialmente em suas salas, como o sinuoso “Tre Piani”, de Nanni Moretti, e a comédia norueguesa “The Worst Person In The World”, o circuito exibidor parisiense anda enamorado da potência estética do diretor lituano Sharunas Bartas e seu recente drama bélico “In The Dusk”, batizado na França de “Au Crépuscule”. Apoiado numa fotografia plúmbea, com seu requintado jogo de luz e cores ao recriar a Lituânia dos anos 1940, essa produção de 2020 – que só agora começa a ganhar salas exibidoras pelo mundo afora – dói politicamente no peito dos europeus, em seu olhar marejado para o projeto soviético de nação socialista. É um filme sobre a moléstia que fez todo um império ruir. A léguas de ser considerado um “filme de direita”, sendo capaz de filtrar partidarismos, essa imersão de Sharunas no teatro de bonecos da História abre um debate sobre a ocupação de terras lituanas pela União Soviética, e outros delitos de Stalin, em um mundo que se recobrava da II Guerra. Estamos em 1948 e vemos uma nova microfísica de opressão se instalar a partir da vivência de um adolescente. Vivência fraturada pela ameaça de tiros, bombas e fome.
“Há um componente com a fé, ou com a falta dela, nessa narrativa, pois temos uma crença na existência de Deus, própria dos povos lituanos que eram adultos durante a II Guerra, que até hoje reside em nosso país. A Lituânia possuía um laço direto com as práticas católicas mais ancestrais quando a II Guerra aconteceu. Mas fé e religião nem sempre são termos sinônimos, pelo menos não em tempos de combate, pelo menos não frente à violência”, disse Sharunas ao P de Pop em San Sebastián, onde concorreu à Concha de Ouro, há um ano e dois meses. “Meu empenho aqui era enquadrar o que havia de essencial num front frio e coberto de névoas a partir dos olhos de quem teve que amadurecer à força”.

Uma fotografia arrebatadora tem garantido elogios para o longa-metragem de Sharunas

Consagrado por pérolas como “Paz Para Nós Em Nossos Sonhos”, exibido em Cannes, em 2015, Sharunas está finalizando agora um documentário, chamado “Watermark (Acqua Alta)”, que tem o ator Toni Servillo (de “A Grande Beleza”) como narrador e que deve estrear na Berlinale, em fevereiro. Mas ele é mais conhecido por suas tramas de ficção. Nos 128 minutos de “In The Dusk”, vemos uma Lituânia rural paupérrima, que treme de frio e de medo do jugo soviético. O jovem Unte, de 19 anos, criado pelo dono de uma chácara, vê seu mundo ruir ainda mais depois que a URSS resolve rebater o movimento de resistência local aos ideais de Stalin. “Venho de um povo que experimentou a brutalidade em vários campos, uma vez que fomos ocupados por alemães, por russos, pela fome”, disse Sharunas em San Sebastián. “Não tento nunca dar aulas de História em meus filmes. Tento apenas partilhar o que vivi”.

p.s.: Que filme curioso (entenda isso como um elogio) é “Tre Piani”, o novo Moretti, que faz uma depuração do melodrama clássico ao narrar conflitos de três famílias que se espalham por três andares de um mesmo prédio na Itália. A literatura de Eshkol Nevo serviu de base para a trama, que arranca de Riccardo Scamarcio sua melhor atuação.

p.s.2: Falando no Festival de Berlim nº72, é possível que a disputa pelo Urso de Ouro de 2022 conte com “Los Viejos Soldados”, um novo exercício do mestre boliviano Jorge Sanjinés – consagrado por “Ukamau”, em 1966, e “O Sangue do Condor”, em 1969 – pelas veredas da ficção.

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