‘Parasita’, o ‘Megatubarão’ do Oscar

‘Parasita’, o ‘Megatubarão’ do Oscar

Rodrigo Fonseca

09 de fevereiro de 2020 | 11h04

Rodrigo Fonseca
Vai ter Coreia do Sul na disputa pelo Urso de Ouro Festival de Berlim nº 70 (20 de fevereiro a 1º de março, representado por “The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo, de carona nos holofotes recentes que o país alcançou após ganhar a Palma de Ouro, faturar US$ 160 milhões e ainda ser indicado a seis Oscars por “Parasita”: esta noite, a estatueta de melhor filme pode ser dele. Sam Mendes, com seu exuberante “1917”, não deve deixar: sua arrecadação de US$ 256 milhões vai fazer diferença nas cabeças ainda indecisas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Academia essa que deixou passar sem indicações o doce “A Despedida”, de Lulu Wang, laureado na noite de sábado com o Independent Spirit Award (a láurea maior da produção indie) de melhor filme e de melhor coadjuvante, para a atriz chinesa de 85 anos Zhao Shuzhen. O mesmo ISA deu o prêmio de melhor interpretação para o genial desempenho de Adam Sandler em “Joias Brutas”, outra esnobada dos Academy Awards. O ISA ainda concedeu os prêmios de melhor fotografia (Jarin Blaschke) e melhor ator coadjuvante (Willem Dafoe) ao thriller psicológico de DNA brasileiro (via RT Features) para “O Farol”. Ali, a dita diversidade impera mesmo. Mas, no caso da cerimônia desta noite, mesmo com alguns deslizes, como esse feito com o melodrama de Lulu, o que deve acontecer é a celebração não apenas da nova estética sul-coreana, mas de uma interseção entre Ásia e USA nas telas, para capitalizar sobre a fome de representação dos imigrantes lá instalados e desbravar novos mercados. Neste momento em que toda a indústria do audiovisual americano, justificada pela peleja em prol da diversidade cultural, luta para ampliar o espaço para protagonistas asiáticos (vide o atual projeto do Marvel Studios: a aventura “Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings”), a consagração de “Gisaengchung” (esse o título original de “Parasita”, que tem Bong Joon-ho na direção) é um gesto estratégico, que tornou-se (beeem) possível com a conquista do prêmio de melhor elenco do Sindicato dos Atores, o Screen Actors Guild. Existe uma aritmética por trás da dinâmica da Academia: seus votantes sindicalizados é que têm o maior peso na votação e o sindicato com maior quórum é o SAG. Porém, há um sindicato que pode lhe fazer frente, em volume de signatários e em importância indústria, o Producers Guild of America (PGA), cujo coração bate por uma outra história, não da Ásia, mas do passado da Europa: a I Guerra Mundial retratada com excelência narrativa singular por Mendes em “1917”. Desde que venceu o Globo de Ouro de melhor filme e direção, no dia 5 de janeiro, o novo exercício autoral do diretor de “Beleza Americana” (1999) ganhou para si os holofotes do planisfério cinéfilo e teve sua visibilidade revertida na forma de uma bilheteria populda: já fez US$ 200 milhões na venda de ingresso (isso até domingo). E esses números só crescem. Dos nove concorrentes à estatueta principal, Mendes e Bong são os favoritos, cada qual em seu quadrado. Já no quadrado dos documentários, o Brasil pode, sim, e com TODOS os méritos ser oscarizado por “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, que, a partir de inquietações pessoais, faz uma imponente cartografia do Impeachment de Dilma Rousseff. Seu “The Edge of Democracy” é da Netflix, que vem sendo abertamente boicotada nas premiações oficiais, em uma valorização dos espetáculos para a tela grande. Porém, o fato de Petra gravitar no terreno da não ficção, onde a briga dos estúdios com os streamings é menor, pode facilitar sua peleja por um prêmio pode fazer toda a diferença no atual cenário de resistência artística do Brasil. E a contundência poética com que ela desnuda estruturas de Poder, em especial as mais conservadoras, amolece corações fora do país, por disparar o alarme do fascismo. Ela pode trazer para o Brasil nossa primeira estatueta dedicada a um longa. O difícil será vencer a fúria das denúncias de “For Sama”, de Waad Al-Kateab e Edward Watts, sobre os conflitos na Síria. E este tem no currículo o troféu L’Oeil d’Or, a Palma dos .docs de Cannes. O ponto de corte do 92º Oscar, que TNT e TV Globo transmitem, contudo, está nessa engenharia de inclusão dos novos mestres de terras d’Ásia, num movimento que vem desde o momento em que a China abriu a carteira para financiar superproduções, começando com “Megatubarão” (2018), com Jason Statham. Ali começou uma miscigenação de saberes, de cultuas e de técnicos que pode dar algo de rico, e diverso, para o cinema do futuro, no qual Bong Joon-ho pode assumir uma posição de (merecido) destaque.

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